terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ela salta aos seus olhos




©Lecy Pereira

É assim que ele a vê nessa manhã.

Ele aprendeu a apreciá-la enquanto ela crescia. Lolita? Nabokov? Não sabia.

Dizem que as ninfetas são o xerox da perdição. Até que ponto há razão nisso? Talvez quando termina a lenda.

Os olhos dela? Deixa ver... Assim como dois favos de mel. Ele foi seu voyeur. Todo mundo é voyeur, mas finge que não para ressaltar a elegância.

Alguns momentos que nem o melhor dos biógrafos conseguiria descrever. Foi assim que ele capturou alguns momentos dela. E tudo que enxergou foi um mimo e uma delicadeza tão específica. A beleza é um momento que busca eternidade. Ela tão frágil e natural. 

Verdadeiras transformações nunca são radicais. Elas ocorrem na sutileza de um segundo (aqui ele está pronto para redigir um novo manual de autoajuda aos órfãos de Barbara Cartland – lembrando que ele também a leu). Pensava que as sutilezas nunca mais o capturariam. Idiota.

Em filmes de piratas, sereias seduzem marinheiros e os carregam para seu reino, talvez para transformá-los em peixes. Peixes. Peixes. Em outras histórias há quem diga que amor bonito é amor impossível. Sei.

Uma música é capaz de sintetizar todo esse laboratório emocional. E nós alimentamos isso como a um novelo de seda. Aquela posição da mão, aquela postura corporal, aquele jeito de piscar, tudo só mais uma tática, uma estratégia, uma carta na manga para capturar. No mínimo, muitas aulas de arte aracnídea. O palhaço que brinca com fogo, quando o semáforo cerra o trânsito de automóveis, costuma reclamar de queimaduras rotineiras.

Isso é tal e qual uma flor que se abre quando ninguém percebe. Essas coisas não conhecem pirâmides sociais. Cismam de ser e são, ainda que embaladas em fantasias, hipóteses, ilusões sentimentais. 

Então, num zás, ela salta aos seus olhos sem qualquer pretensão, sem nunca entender ou experimentar um décimo de toda história ou de todo romance açucarado que ele redigiu. Só ele arquitetou a história. Só ele deu vazão a uma profusão de sentimentos, só ele planejou tudo aquilo. Uma autêntica trama folhetinesca do Século Dezoito.

Ele, desolado, sustentando toda aquela plataforma de desejo que, certamente, nunca se concretizaria da forma que imaginara, deixou-se embalar pela seguinte indagação: “Quem tem pena de Vladmir Nabokov?”.

A musa singela continuou com aqueles ávidos olhos de mel, com aquela doçura sedutora, com aquela sutileza perversa de quem domina a arte da sedução. Secretamente, talvez pensasse: “Coitado, mais um ingênuo...”.

Cai o pano.
Postar um comentário