terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Ode Urbana



(De ODE SENSACIONAL)



fluxos torrenciais de faróis encobrem o anoitecer de fuligens

nas avenidas de contornos serpentinos e labirintos de alamedas

onde trinta e sete por cento da população economicamente ativa
vive na informalidade do subemprego

ou vultos se abrigam sob as tendas de concreto armado –

elevados cruzam hipervias em alta velocidade Setenta por cento
dos veículos com IPVAS em dia em velocidade superior a sessenta
quilômetros por hora

quando os quatro vagões do metro ( s e suas quarenta janelas)
iluminam os pilares dos viadutos

e dois vultos em trapos contemplam o desfile cinematográfico de
faces

e olhares se derramam na sucessão de trilhos e luzes noturnas

os pirilampos frutos de monstruosas turbinas de grotescos
megawatts

fritando as pupilas e impulsionando os motores e roldanas

nos níveis e subníveis de plataformas e estações

e os subterrâneos e os quilômetros de canais e quilômetros de
fios sepultados

e as galerias e sondas e trituradoras e carrinhos de tração

extraindo riqueza do subsolo para a ganância dos escritórios

nos arranha-céus de argamassa e vidro a flutuarem meio aos
anúncios néon

quando não ofuscados pela fuligem das chaminés pós-industriais

nas torres pós-modernas de alumínio e isopor e laminados
e recicláveis

onde funcionários sorridentes ocultam o estresse diário sob roupas
de fios artificiais de conhecida marca

em cortes de alta costura e detalhes os mais inusitados

manuseando teclas e mensagens nos telefones celulares

sob a carícia dos condicionadores de ar nos mundos lacrados

no paraíso das máquinas em apoteose nos domínios virtuais

na efici6encia topográfica das infovias no mainfream dos
servidores

na performance tecnoestética dos supercondutores

até os limites do deserto do real palmitando o cyberespaço
das neo-mitologias digitais

quando a tecla pressionada responde ao toque com promessas
de orgasmos

no cruzamento de magias e tecnologias de última (e pós-última)
geração

engavetando juventudes nos vãos dos edifícios suburbanos

nas velocidade tremulantes dos coletivos intermunicipais

além de conflitos de ocupação dos espaços públicos (e dos
serviços públicos)

quando as autoridades buscam o bem-estar social e o bem
comum através do poder público

(segundo consta nos parágrafos e incisos da lei orgânica
do município )

na paisagem lunar dos estacionamentos no abandono das autopistas
noite adentro

sob a névoa rubra de mercúrio na brisa arrepiando o asfalto

no agito das lojas de conveniência e artigos para consumo

no trânsito vertiginoso de veículos de duas rodas nos
acidentes com fratura múltipla

sob os lampiões voltaicos e a lua cheia fatiada por fios de
alta tensão.


BH – Contagem – Betim
Noite de 20 fev 06


Leonardo de Magalhaens

Postar um comentário