Versos Livres de um Levante


@Lecy Sousa


Levante, de Henrique Marques Samyn, não é um livro leve. Afinal, quem disse que o amor à liberdade é composto apenas de plumas e paetês?

Sendo o Brasil o país do continente americano que mais importou seres humanos africanos para escravizá-los (cerca de 40% do contingente total), a relação entre a servidão e o ódio aos colonizadores tornou-se umbilical. O livro apresenta seis "cortes" poéticos, profundos e cardíacos, a saber: Desterro, Cativeiro, Ancestralidade, Resistência, Herança e Liberdade. Ao lê-lo, sentimos na pele um orgulho e uma esperança libertária, ainda que tudo ao redor insista em provar o contrário.

Cidinha da Silva, autora do prefácio, impacta-nos logo no título: “Se a luta é justa, a queda é sempre falsa”. Ela complementa: “Percebemos em Levante uma poética de alteridade e autoridade que, a todo tempo, confronta a perspectiva patriarcal e branca de ‘dar voz aos subalternizados’”.

Entre homenagens justas àqueles que pagaram o preço da revolta, Samyn nos relembra a "cor local" do Cais do Valongo, no Rio de Janeiro. Não o faz de forma estética para atrair audiência em uma novela de época, mas de forma crua e barbaramente mastigável — ao ponto de o sangue correr pelos lábios grossos de um povo.

Não fiquemos chocados quando, no terceiro “corte”, encontrarmos Lucas Dantas:

“Eu, Lucas Dantas, recuso / a unção que vós me ofereceis. / Matai-me – se assim desejais; / se a morte eu, de fato, mereço. / Mas não me arrependo: Lutei / por não suportar a opressão. / Matai-me – e deixai-me morrer; / mas não, não aceito esta unção.”

Com uma arte gráfica que suscita porosidade, aspereza e uma resistência de pele — uma realidade tão colonial em sua essência quanto urbana em sua forma, assemelhando-se a um barraco opressor e sem janelas no Jacarezinho ou na Rocinha —, Levante é um livro para ser lido, relido, recitado em voz alta ou entoado como um silencioso mantra rebelde.

Havemos de saber: o tempo passa, mas os chacais racistas estão sempre tramando com dentes trincados. Por outro lado, os tambores nunca param de bater, impedindo que a palavra “esquecer” consiga dormir.

Levante foi publicado pela Editora Jandaíra em 2025.



Henrique Marques Samyn, é carioca, nascido em 1980, na Praça Seca, zona oeste do Rio de Janeiro, professor do Instituto de Letras da UFRJ entre outras atividades correlatas.

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