Você já sentiu que algo na nossa cultura está se deteriorando, mas não conseguiu explicar exatamente o quê?
Muitos apontam causas diferentes: polarização política, globalização, novas tecnologias. Quase sempre, no entanto, o dedo termina apontando para as redes sociais.
Mas talvez o problema principal não esteja no conteúdo nem nos algoritmos.
Talvez esteja no tempo.
A era das histórias de 15 segundos
Vivemos em uma cultura que passou a contar histórias predominantemente curtas — às vezes com 15 ou 30 segundos de duração.
Quando criticamos as redes sociais, costumamos focar:
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No que é dito;
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Nos algoritmos;
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Na manipulação de dados;
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No comportamento viciante.
Tudo isso importa. Mas há algo mais fundamental: a forma do meio.
Vídeos extremamente curtos têm uma capacidade limitada de transmitir significado profundo. Não é uma questão moral. É estrutural.
O meio molda o pensamento
O teórico da comunicação Marshall McLuhan dizia: “O meio é a mensagem.”
A forma pela qual consumimos conteúdo molda nossa percepção do mundo.
Há uma diferença evidente entre:
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Ler um romance;
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Ler um tweet.
Assim como há diferença entre:
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Assistir a uma peça;
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Assistir a um vídeo de 15 segundos.
A profundidade possível depende do tempo disponível para desenvolver conflitos, consequências e resolução.
Histórias constroem civilizações
Histórias não são apenas entretenimento.
São estruturas que organizam a realidade. Dinheiro, leis, nações — tudo isso funciona porque acreditamos coletivamente nessas narrativas.
Se as histórias moldam a civilização, então a forma como as contamos também importa.
Narrativas longas permitem complexidade moral.
Narrativas ultracurtas tendem à simplificação:
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“Fulano é mau.”
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“O outro lado é vilão.”
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“Eu sou vítima.”
É a moral reduzida à menor resolução possível.
A atenção está em jogo
Há evidências de que a leitura diminuiu e que a capacidade de concentração vem sendo afetada, especialmente entre os mais jovens.
Se perdermos a habilidade de sustentar atenção por longos períodos, não perdemos apenas um hábito — perdemos uma ferramenta essencial para pensar com profundidade.
Não se trata de demonizar vídeos curtos. Muitos são criativos, inteligentes e informativos.
Mas uma dieta baseada quase exclusivamente em fragmentos rápidos inevitavelmente empobrece a experiência cognitiva.
O que fazer?
Não é necessário abandonar as redes sociais.
Mas talvez seja necessário equilibrar:
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Ler um livro.
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Assistir a um filme inteiro.
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Ouvir um álbum completo.
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Assistir a um vídeo longo até o fim.
O tempo que dedicamos ao conteúdo pode ser mais importante do que o conteúdo em si.
Se você leu até aqui, já fez algo cada vez mais raro: manteve atenção.
E talvez isso, hoje, já seja um pequeno gesto de resistência.

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