domingo, 7 de abril de 2019

Fluxopoema - 2009






Não quer o doce/não quer o sal/não quer o são/não quer a dor/não quer a flor/não quer a mão/ não quer o pé/não quer alegria/não quer ser triste/não quer o morno/não quer o insosso/não quer o sol/não quer a noite/não quer o crepúsculo/não quer a paz/não quer a guerra/não quer o riso/não quer o choro/não quer o beijo/não quer o abandono/não quer ficar/não quer casar/não quer a solidão/não quer a festa/não quer o silêncio/não quer interagir/não quer o sexo/não quer dormir/não quer acordar/não quer viver/não quer morrer/não quer andar/não quer parar/não quer comer/não quer doar/não quer receber/não quer ler/não quer férias/não quer trabalhar/não quer dançar/não quer o prato feito/não quer nada/NÃO QUER NADA/NÃO QUER NADA/NÃO QUER NADA/ o mundo é uma sequência de ter e não ter/o mundo é uma sequência de ter e não ter/o mundo é uma sequência de ter e não ter/ o mundo é uma sequência de TNT/TNT/TNT/TNT/de impulso em impulso a Marte se vai/não se vai ao centro da Terra/nem ao centro de cada um/essas são viagens outras/desconhecidas aos olhos de uma preguiça eterna que reside abaixo do couro cabeludo/esse não é um poema calculado/mais é um poema que não se decifra diante das cifras/diante do status de quem pode, pode/fluxopoema/são palavras parecendo insanas de um ser primitivo almoçando seus irmãos/jantando seus primos/flores na sobremesa/esses olhos/sabe, esses olhos/deles correm o riacho de cristal/esperam úmidos por respostas amorosas/desde que viver e morrer são existências paralelas/essas horas/são essas horas/são essas horas/minuto a minuto/diluindo a paisagem/presenteando a retina sempre/na rotina das cidades tomadas de piche ao chão e de paredes pichadas/segue o homem prosaico toda vida/até a miríade de outras galáxias/ a bota espreme a boca no asfalto/ a cabeça está no oásis/dançarinas do ventre livre/como escravizar o que ainda não veio?/liberdade é a que nascerá/sabe a água que a falta mata/ela escorre pelos dedos com as mãos em concha/assim como toda estrutura muda/ao sabor do sol, vento, pingos de lágrimas de gigantesca alegria/toda estrutura muda na frase da camiseta/toda estrutura muda tatuada na tua nádega/toda estrutura milenar vira suco daquele pó misturado no litro de água/as gerações devem tudo ao fluxo sanguíneo/solve – coagula/solve-coagula/gula, vaidade, inveja, ira, preguiça, avareza, luxúria/tudo parte de uma trilha sonora única/todo país, ilha, oceano/toda sereia serelepe/toda sinapse partida do seu labirinto cerebral/toda levantada de sobrancelha ante a frieza dos facínoras/todo músculo pronto para cópula/toda impotência da pilha gasta clamando pelo carregador/sonhando com delicado-puro-casto-doce hai cai /tudo parte dessa estrada de pó batido e levantado nos cafundós da roça-coração/fluxopoema/que mie o sapo/que lata a cobra de bronze na varanda da fazenda/que ruja o veado campestre/que nos seduza a musa do mato, das gramíneas imberbes cobertas de pelos dourados ao sol/que o flerte seja inocente e escancarado como a relação das árvores e dos pássaros beijando suas flores, a seguir as abelhas/quem disse que sairemos ilesos das relações mútuas?/ Todas as vias expressas com suas placas indicativas/todo rock progressivo, todo baião, toda sonata-cantata, toda nota nascendo na garganta do tenor, do barítono, do soprano/tudo resvala na letra/a lerdeza ou a velocidade das conexões do mundo em rede/cada biboca, cada terreno baldio/cada escuridão debaixo de escadas carcomidas ao relento/ cada mansão minimalista projetada por um arquiteto em revista sofisticada/cada drogado exalando urina, tombando pelas beiradas/ a modelo top no modelito esqueleto evoluindo sobre o tapete verde/segue a sobremesa de sorvete de pistache com folhinhas de hortelã/segue a batida da festa rave na terceira hora da madrugada/segue o funeral ao meio dia/segue o poeta admirando a melodia de Alphonsus de Guimarães/sabe aquele romance de páginas oxidadas/agora pode ser lido em tela de cristal líquido/fluxopoema/segue o asno conduzindo sua família quadrúpede/mourões, cercas de arame farpado, campos minados, furacões/segue aquilo que não pode ser mudado e o que só depende de um sorriso espontâneo/ eis a minha - sua indisposição/eis a pirraça cósmica cozida em banho-maria/balões multicoloridos e hidrogênicos sobem aos céus/em cada balão dois olhos e um sorriso/maravilha é ser não sendo/estar não estando/prazer é fluir pelas asas do soneto em estado bruto/ prazer são as ondas marítimas quebrando livres na praia/amor é sua boca com língua e céu particular/amor é uma palavra que você me disse ontem/amor é seu coração pulsando louco junto ao meu na noite do mundo/havemos de preparar os poemas como cânticos de guerra?/a complexidade mais simples define amor/só não mensura a intensidade do desatino/esse é o poema diante do assombro do mundo à sombra de uma árvore/sendo semáforo com sinal de siga/sendo termômetro do corpo/no silêncio da expectativa/na certeza da comunhão final/quando a terra que sangrou ao ser cavada/terá de volta aqueles que dela se servem no banquete da sobrevida/terráqueo, terreno, terrano/brincando de amor e ódio no teatro de arena/construído para intrigar os arqueólogos do futuro/estampado nas páginas dos livros de História/para curiosos estudantes do ensino fundamental/ a História se repete/ a guerra conhece sua dor e seu horror/ o sexo conhece seu prazer milenar/de entrega em entrega chegamos à redenção/enquanto a menina-mulher estoura bolas/com sua goma de mascar sabor morango/enquanto o menino-homem estoura espinhas da sua erupção cutânea/sigamos superficiais/fluxopoema/não querer entender/verbo hemorrágico/ouça esse tom verbal/são minhas células vibrando/chamando por seus dígitos/num canal portátil/esse é o mural das colagens/essa é a filipeta eterna/original é a cigarra cantando-chamando-chuva/esse é o quadro branco/onde a escrita de pincel especial/desaparece ao movimento do apagador/qual é a senha dos notívagos coletivos?/eis que estamos às janelas e batemos/os vitrais da santidade seguem intactos/mas os telões da insanidade?/segue a sanha sem senha/suave é a musa do Cântico dos Cânticos/quem consumirá calhamaços de ideologia sorrindo todo tempo?/versada é a letra maiúscula/querer o sol, mas a tempestade/querer água, mas o ácido/querer lábios de mel, mas o vinagre das horas/querer céu, mas estrelas quedadas em três dimensões/querer a meditação na Serra do Cipó, mas o espasmo/querer beatitude, mas inércia/letras tecidas compõem tecido único/urdidura recheada de signos/colméia de saberes difusos/tão logo amanheça o ginete espera/brancas jornadas pela constelação de Sírius/luminoso outdoor da paciência/na lápide lapidado reside o coração de rubi/colagens de um mundo pop/silhuetas preto-nanquim recortadas no papel vegetal/glamorosos vetores do mundo/fluxopoema/na pedra d’alguma esquina jaz escrita o final da história/mas a pedra flui atômica/resta a doçura do beijo/resta a candura d’olhar/toda poesia que emerge das folhas secas/toda dor lancinante dizendo: existo/toda crônica evaporada do asfalto/todo verso apontando limites/eu te adoro é um grafite no muro/eu te amo é um alfinete no mundo/essa poesia é um soneto bruto/essa poesia é um verbo atômico/essa poesia é um poema-bomba/pronto para detonar no coração de Nova Iorque/aquele bairro de periferia-pobre que não conhece poesia/resta o som que emana de um cravo/resta a polifonia de um sampler/resta a tensa falta de intenção/ sentido está em não fazer/pardais trinam festivos sobre quilos de fios de alta tensão/versos decadentes/versos de exaltação/elegias idiliosos/tudo se converte num programa qualquer/coisas que também são outras coisas/toda poesia nasce para depois/agora é o ícone da intenção/uma pena indo aos ares é poesia carente de compreensão/por fim um mar de nuvens nevadas há de nos completar no quebra-cabeças do ar/voa castidade,generosidade, temperança,diligência,paciência,caridade,humildade/ ao céu de polissemia/ minuto de silêncio/ escuro mais intenso anuncia: chegada de um novo dia.

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Lecy Sousa é servidor público em Contagem - MG atuando em biblioteca escolar.

Publicou seu primeiro livro de poemas “Primeirapessoaplural” (2008) pelo selo “Árvore dos Poemas”, dentro do Projeto Terças Poéticas do Palácio das Artes em BH. Participa de projetos como “A tela e o texto” da UFMG, Pão e Poesia do poeta Diovvani Mendonça, Belô Poético e Poesia na Praça Sete criados pelo poeta Rogério Salgado e pela poetisa Virgilene Araújo. Também participou da fundação da Academia Contagense de Letras – ACL. Publicou “Rascunhos” em 2015 pela Editora Multifoco e Poesia Fora da Curva pela Para.Grafo em 2017. Atualmente, tem originais sendo avaliados por diversas editoras.

Tendo como praia o experimentalismo, Lecy Pereira gosta de brincar com as palavras - ainda que elas transmitam preocupações sociais - a sonoridade que elas proporcionam em qualquer língua e se surpreende quando isso faz algum sentido para os leitores. Seus textos, entre contos, crônicas e poemas estão pulverizados em sites da Internet e carecem de pesquisa.

Para o autor pouco importa o tipo de suporte de publicação. Importa mesmo é que o leitor se interesse pela leitura e ao final não fique com uma estranha sensação de que perdeu seu tempo.


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