quarta-feira, 28 de maio de 2014

Entre dois pontos de Lecy Pereira

Entre e seja bem-vindo!
Na poética de Lecy Pereira Sousa, todo delírio tem como fonte o lírio nutriente provindo de um olhar ousado. Um olhar que se aventura no tatear de paladares inusitados. Uma escuta que perscruta o avançar e o recuar de vozes, ora convergentes, ora dissonantes. Na literatura desenvolvida pelo autor, o ruído é bem-vindo, pois comunica o que há de mais visceral no elaborado da chama expressiva. Concitado a falar sobre o plurissemiótico transitar de textos e imagens vindos à tona na obra “Entre”, de Lecy Pereira Sousa, destaco na poesia ‘variada das ideias’ um pulsar inquieto de versos, cuja leitura primeira só se faz entrelinha charmosa se caso relemos com gosto o mundo presente ali de possibilidades. A pausa se coloca como avançar aos goles, sem a necessidade de bebermos tudo de primeira, como pede a gulosa sede do imediato. É bom que se diga que, em pleno ritmo dançante das cores, simultaneamente se encontra uma espécie de ‘melodia grafitada’ de versos colhidos em pleno “instante-já”, para utilizar um termo de Clarice Lispector.

Diz-se que do boi se aproveita tudo, até o berro. Pois da poesia Lecy se aproveita tudo, até o silêncio. Partindo de um design ‘ frenético frenesi’, o poeta agita o perfume da vida para mostrar a essência-suor de que vale seu labor literário. O título da obra pressupõe um convite ao leitor para adentrar no recinto poético, cercado de arrumações e desarrumações, conforme os pareceres extraordinários e ordinários advindos da percepção. Bela sacada esta: “eu ecoo”; parece-me uma autoria empenhada em apreciar a estética da recepção de perto. Bem de pertinho. Poética da repercussão, produz autenticamente Lecy. Longe de querer o paparico da aceitação pública, o poeta ultrapassa esse tipo de sucesso apegado para abraçar, com açúcar e com afeto, o mínimo e o secreto do conviver. Afinal, escreve Lecy: “tão semelhantes somos em Pequenopólis,/ mesmo diante de tantos pontos de fuga”. A fuga aqui é encontro. Encontro com a ciranda das palavras radicalmente livres: “ainda que porosas,/ palavras evaporam/por poros pontilhados”.
= Marcos Fabrício  Silva =

Para ler, basta clicar abaixo:

sábado, 10 de maio de 2014

Pelos caminhos da imaginação

Lecy Pereira Sousa

Tex Willer e seus amigos
Não sei se é habito ou a falta dele, mas me coloco a ler dois, três livros, interrompendo a leitura deles em parágrafos e páginas aleatórias e retomando dali em dias também alternados, sem a sensação de perder a trama ou confundir os enredos.

Há livros que "esperam" demais que eu retorne a eles. Outros são lidos sôfregos. Aquelas narrativas que não empolam. Como aqueles pilotos que completam a corrida com uma troca de pneus sem perder posições. Desconfio que o cérebro é um complexo emocional cheio de caô. Por exemplo, há mais de duas décadas, a lembrança de Natal que ficava em minha mente era a de uma época cheia de neve em que eu assistia ao especial de Natal do Zé Colmeia e sua turma. Enquanto só chovia no mês de dezembro, eu me perguntava: cadê a neve? A neve estava nas revistas da turma do Bolinha e do Natal do Mickey. Sim, porque eu me pegava lendo toda e qualquer revista em quadrinhos que na minha mão caía. As de faroeste também. Confesso que eu não gostava daquele estilo assassino, mas eu me sentia o próprio Tex Willer, herói do Velho Oeste criado por um... italiano. Imaginem... um italiano que tem fã-clube no Brasil.

Hoje, eu não me lembro bem de como essas revistas chegavam às minhas mãos. Acho que eu pegava emprestado de alguém ou conseguia comprar algumas com o dinheiro que ganhava de parentes. O cenário de agora é muito diferente. Você pode ler quilos de revistas virtualmente, sem falar nos animes japoneses que causam furor entre os jovens  e incentivam os cosplay, assunto para outro texto. Dificilmente, ou nunca, você terá na televisão as opções que encontra na Internet. A menos que a televisão se transforme em Internet.

A impressão que fica é a de que, hoje, o Natal é mais técnico. Refiro-me ao Natal comercial e não ao Natal primitivo, mais próximo dos princípios cristãos. E a neve, por essas bandas, não passa de ficção em shopping.

Ainda bem que havia revistas e desenhos animados a me proporcionarem o mínimo de fantasia em tempos nada fantásticos. Sem qualquer tipo de nostalgia, mas de boas lembranças, a infância é o terreno que o adulto no qual somos forçados a nos transformar, por questões evolutivas, jamais conseguirá minar com sua visão de realidade crua, limitadamente crítica e, por conseguinte, vazia de inocência.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Pelas ondas mutantes


Esse blog não é mais criança.

Devido a diversas situações, eu nunca pude blogar de uma forma consistente. depois, aprender a se situar no mundo web leva tempo. Manter uma "audiência" regular, então, nem se fala.

Considere, também, o ritmo alucinante que a virtualidade impõe e o tempo que você dispõe  para ficar conectado. Blogar para quem não é celebridade, é trabalho operário.

Devo muito à Internet. Por meio dela pude expor minhas limitações e começar a dimensionar minhas possiblidades.

Não penso que o "Mutações" será Top of Mind e acumulará selos de melhor da Internet. Nunca tive esse foco. Esse blog apresenta imperfeições que assombra profissionais de mídia virtual. Nunca deixei de blogar com liberdade. Continuarei fazendo isso, enquanto achar que agrega algum valor experiencial. 

Quantas coisas aconteceram nesse recorte de tempo. Quantas pessoas conheci e quantas deixei de conhecer. Possibilidades, como diz uma amizade surgida após o blog.

No mais, agradeço pela "audiência" conquistada ao longo dos anos. Sei que ela vem do Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Portugal, Rússia, Espanha, França, Canadá, Malásia, Holanda e até da China.

Para um blog de livre expressão como é o caso desse, ter visitantes com alguma regularidade é algo excepcional.

Obrigado a todos e seguimos.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A fábrica de robôs


                                                                              Lecy Pereira Sousa
Confesso que saí meio autômato de "A fábrica de robôs"(1920), livro de Karel  Tchapek, renomado autor tcheco que criou a palavra "robô", tão conhecida ao redor do mundo. O livro é traduzido por Vera Machac, tradutora juramentada da Junta Comercia de São Paulo.
Então, devemos temer os robôs? Ao ler essa peça teatral de Karel, nada mais shakespereano, penso que sim. É um livro de fácil leitura? Hmmm, deixe-me ver, depende do nosso conceito de dificuldade. E onde eu falo "nosso", estou me referindo à individualidade da mônada como bem abordou o grego Platão, pelos idos de Antes de Cristo(não confundir com anticristo, please).
Sinceramente, não é nada confortável saber que estamos superados pela inteligência artificial, mesmo antes do nosso ritualístico fim biológico. Mas se o problema é comparar, basta lançarmos um olhar para o que se passa no universo. Pronto. Estaremos definitivamente humilhados e feridos em nosso orgulho de seres "superiores". O universo desmistifica qualquer conceito de grandeza individual.
Tchapek nos assombra com seu estilo de teatro do absurdo semelhante a Edward Albee com o seu, inesquecível, "Quem tem medo de Virgínia Woolf". O  mundo onde máquinas e homens vivem felizes para sempre  parece não caber no planeta Terra. A substituição do trabalho humano pelo trabalho robótico, aos poucos se transformando numa substituição full time. Está criado o cenário (tudo a ver com teatro) para calorosas discussões existencialistas. Os robôs proporcionarão um mundo melhor de se viver para todos, sem distinção? E, uma vez, fazendo tudo que caberia aos humanos, o que mais eles reivindicarão ao superar qualquer inteligência mamífera? Seríamos todos meio personagens de Tchapek? Todos saídos da fábrica Robôs Universais Rossum?
Como uma das piores coisas que um mesorresenhista pode fazer é dar o spoiler completo de um livro, fica a quem se aventurar a ler, a esperança ou o elemento que, de alguma maneira, poderá nos salvar de nós mesmos, segundo o autor. Medo...