segunda-feira, 21 de abril de 2014

Humanum est

                                                                                                Lecy Pereira Sousa
                      
Zeus, pai de Cronos - Mitologia Grega
Acabei de ler o texto escrito pelo jornalista e escritor colombiano, Héctor Abad e traduzido por Francesca Angiolillo, editora- adjunta da “Ilustríssima” que integra o jornal Folha de São Paulo (20.04.2014).

Intitulado “O resto é silêncio”, o texto ressalta que Gabriel García Márquez, falecido a 17 de abril de 2014, era um escrito imenso, mas deste mundo.

Concordo com Héctor, nessa ressalva, em parte (não tenho embasamento científico para afirmar que somos exclusivamente deste mundo). As demonstrações afetivas que ocorrem na Colômbia são justificadas por quanto o nome e o talento de Gabo colaboraram para colocar o país no cenário mundial em termos literários.

Mas a pergunta da qual não se ocupa o texto de Héctor  é: o que, de fato, mitifica um autor? Seriam seus livros, a sua capacidade de lidar com a mídia, seu bom trânsito entre “poderosos”. Porque, a Literatura em geral, é também um terreno onde, se a inveja(sentimento considerado menos nobre entre pessoas esclarecidas) matasse, teríamos velórios semanais no mercado editorial.

Entendi o ponto de vista de Héctor. Apenas acresço que, a forma como as pessoas reagem à morte de qualquer figura pública ou não é imprevisível. Não é a maneira como eu acho que deveriam se comportar que prevalecerá. Eu posso considerar mais ou menos exagerada essa ou aquela manifestação. Naturalmente, os desafetos do autor achariam melhor que ninguém dele se lembrasse post mortem. Quem ou o quê mitifica um ser humano? O diploma? A nobreza? O sobrenome? A morte, por ela mesma? A fama? A fortuna? O intelecto? A personalidade? Ora, desde a minha adolescência li autores que haviam morrido há centenas de anos e ficava a imaginar que tipos humanos eram aqueles capazes de provocar tantas sensações num simples leitor. E se os conhecesse de fato, em seu cotidiano? A magia e o encantamento prevaleceriam? A obra não é o autor? Ou eles passariam a ser, apenas, um bando de malucos que perdem um tempo precioso inventando histórias e enchendo laudas?

Não consigo me esquecer de um trecho da autobiografia do poeta chileno Pablo Neruda. Ele afirma nunca ter entendido como alguns poetas de sua geração, por ele considerado geniais, jamais publicaram ou alcançaram a visibilidade que ele alcançou. O que aconteceu com Neruda qualquer leitor de ginásio (pelas barbas do profeta) sabe. Então, quem decide qual autor ou personalidade será mais ou menos aclamada? A vendagem de livros? O prêmio Nobel? Algum escândalo? Eu tenho minhas dúvidas. Há autores, que passaram por todas essas situações, dos quais não lembramos sequer os nomes.

Á memória de Gabriel García Márquez cabe o respeito de seus pares, o carinho de seus leitores que não são poucos, as homenagens, que são um desdobramento do fato. Quanto ao homem, colombiano, nascido num vilarejo, só aqueles que o conheceram de perto podem dizer de que maneira, específica, tal figura ficará marcada em seus corações e mentes. É fato, cada um o percebia com interpretações, inconfundivelmente, peculiares.
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