segunda-feira, 7 de abril de 2014

A arte de viajar e sobreviver

   Lecy Pereira Sousa

Tendo concluido a leitura de “Duas viagens ao Brasil”, escrito por Hans Staden e publicado nos idos (bote idos nisso) de 1557, numa terça-feira de Carnaval – algo tropicalmente sugestivo, o que devo dizer?

Seria legal se todos os brasileiros e brasileiras pudessem ler esse livro, mas é discutível se isso acontecerá nos próximos 500 anos, pelo fato de eu, mesmo, ter tido acesso ao livro em 2013. Considere, ainda, que  Hans Staden era um mercenário, curioso, viajando com plano traçado e sem um pingo de juizo, no sentido da temeridade. Um sujeito desbandeirar da Alemanha para uma gigantesca floresta selvagem (na visão dos europeus), no Século XVI, com intuito mais evidentemente comercial só podia ser ou louco, ou um homem cheio de fé em Deus. A propósito, ter fé em Deus ao ser feito prisioneiro por índios Tupinambás, canibais por excelência no trato com seus inimigos, seria uma questão de prudência.

Hans Staden escapou à mingau – e mingau era o que esses indígenas faziam para saborear todas as partes dos infelizes prisioneiros. Inclusive a flora intestinal.

Por um milagre, Hans Staden sobreviveu para contar a história, que muitas gerações devem ter lido com o
Hans Staden
mesmo ar de espanto que tal livro ainda provoca em quem o lê. Não deixa de ser um impressionante registro histórico da terra brasilis. Segundo o próprio Staden, esse livro é só um aperitivo do que ele vivenciou por essas bandas. É claro que esse relato fez com que os europeus pintassem o Brasil como um ninho de canibais. Na atualidade, não são poucos os que ainda pensam dessa forma.

Dividido em duas partes, trazendo capítulos com títulos quilométricos (uma característica literária daqueles tempos), essa edição da L&PM Pocket Descobertas tem a Introdução escrita por Eduardo Bueno, escritor e jornalista que tanto tem contribuido para desmistificar a gloriosa história da nossa pátria mãe gentil.
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