sábado, 22 de março de 2014

Para pós-ler o mundo

Lecy Pereira Sousa


Como pós ler o mundo se sequer fazemos leituras rasas do tempo presente?

Estamos diante da, ou inseridos na novela gráfica da manhã-tarde-noite.

Houve um tempo em que, talvez, fosse possível fatiar o tempo e ele obedecia a essas rupturas.

Agora, já era. Imagine uma peça teatral onde tudo acontece numa linha do tempo inteiriça, sem espaço para qualquer tipo de reflexão, relegando essa capacidade privilegiada ao limbo? Conseguiu imaginar ou o alarme de uma nova mensagem inibe sua abstração? O que dizer do olhar ensaíta em “Apocalípticos e Integrados” do Umberto Eco. Isso é pouco revelador. Tudo é pouco revelador, diante da puta necessidade do explícito. Nada é para sensualizar. Tudo é para se enfartar. A impressão superficial é de que o deslimite anda em círculos. Todos jogando um pôquer fodido e quase todos blefando. Mas blefando com elegância. Blefando na crença pueril de estampar a capa da “Vanity Fair”. Blefando usando uma plataforma “Made in Cingapura” num galpão subnutrido qualquer. É a escravidão elegante. Uma espécie de servidão sorridente, cheia de uma esperança fria de dominar o mundo. O único tesão real (sem querer ofender vossa majestade balançando as joias) é o de dominar o mundo. O sexo? Essezinho é um mero produto com ou sem vibrador vendido no e-comerce da esquina.

Nesses tempos ininterruptos, diante da insuficiência da troca de fluidos com os pares, encontra-se nos melhores nichos do ramo ânus e vaginas portáteis para quem dispensa o combo inteiro: bonecas e bonecos que ocupam um espaço indesejado e dão trabalho para lavar. Parece muito submundo ou podre aos seus olhos? Acredite, estamos,apenas, no nível intermediário do prédio. Vai descer. E lembre-se, cara, de lástima em lástima não se constrói enredos notáveis. A não ser que você trabalhe para a indústria dos games. E pare com esse negócio de achar que quem escreve vive o que rabisca, cara. A culpa é desse hiper-realismo que dá um dedo médio para a fantasia e, geralmente,fica sem ele.

Pós-ler o mundo, implica esse tipo de sacanagem. Ler o que está dentro. Não. Não como bula na caixa doentia de drogas farmacêuticas, mas como um repetidor de alguma emoção. Algo que, definitivamente, os robôs jamais farão com essa galante imprecisão deserdada pelos cânones umbilicais.
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