segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

De magia e lentes multifocais

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   Eles poderiam estar em um restaurante de cinco estrelas no centro de Roma. Também praticar o romântico e tradicional exercício de arremessar moedas na Fontana di Trevi. Algum filme de Fellini como “La DolceVita” ou “Otto E Mezzo”, eles poderiam assistir.

   Mas não era bem aquilo. Eles poderiam estar dentro da cabeça da Estátua da Liberdade em Nova York observando aquela arquitetura predial de retângulos esticados e justapostos bem em frente, enquanto experimentavam o sonho americano.
   Havia, ainda, a emoção insubstituível de uma viagem de trem por uma antiga cidade campestre na América Latina em plena primavera. Campos de girassóis, rebanho de ovelhas, árvores frutíferas, o verde intenso passando por seus olhos.
   Aquele era o suposto casal que se descobrira através das lentes com armações modernas. Um passou a enxergar no outro o que, antes, sequer imaginava. Será que também as emoções passavam a ser lidas com uma riqueza de detalhes, ao ponto de um simples olhar processar diagnósticos precisos? Uma espécie de interpretação de texto dissertativo? Afinal, esse é o mundo contemporâneo das cores terciárias em que a fusão gera confusão, beleza, espanto e resignação. Seus olhos, agora, pintam uma nova película. Qual? A digital. Aquela em que até o preto e branco ganham uma sofisticação de vintage eterna. Um clima que os produtores de videoclipes recriam tão bem.
  Então, os dois entraram pelo portal da criatividade como quem entra no Reino de Nárnia ou na Terra Média do Senhor dos Anéis. Poderia ser um dos mundos criados por Tim Burton ou um enredo de romance épico para Umberto Eco costurar com sua agulha semiótica e seus indefectíveis óculos de grau.
  Surpreendentemente, eles descobriram a tessitura da pele um do outro. Como não perceberam aquilo antes?  Uma nova vida quadro a quadro e luminosa. Os poros vibrantes de uma mão direita acenando para alguém do outro lado da rua como a fotografia do trecho de um livro de Milan Kundera. Seria “A Imortalidade” ou “A Lentidão”? Difícil saber. O letreiro feito a jato de areia numa cafeteria parecia adquirir um efeito de tridimensionalidade hipermoderno. Então, os óculos tinham aquele poder? Estavam a provocar uma sensação de onipresença, a leveza de estar em Nova York, Rio ou Tóquio sem check in ou ponte aérea. Ainda que houvesse Google Street View, a sensação era bem outra. Eles estavam bem ali atravessando uma ponte de pedra com seus arcos simétricos e flores selvagens - flores selvagens? – que brotavam silenciosas entre a junção das pedras ao longo do tempo.





   A fragrância era facilmente perceptível. Do outro lado da ponte típica de telas a óleo expressionistas havia o mercado da cidade com sua sonoridade característica. Moedas tilintando, moças com seus headfones, rapazes presos a seus aparelhos celulares touch- screen, donos de bancas de tangerinas, morangos e queijos rústicos. Impossível não se lembrar do escritor Italo Calvino com suas cidades invisíveis e nós, os aprendizes de Marco Polo, o mercador de Veneza e do mundo. Sentia-se o apetitoso cheiro das frutas que também enfeitam álbuns sedutores e filtrados no Instagram. Frutas e grãos dividiam espaço com acessórios eletrônicos, algumas cópias de robôs humanoides e, nas vitrines de lojas de roupas, manequins humanos se revezavam para lanche, almoço ou toillete.
     Eles estavam diante de um novo mesmo mundo que dispensava a potência dos alucinógenos. Diante dessa acuidade visual outros sentimentos se afloravam, tal o desejo de abraços, o tato no contorno da face, braços nas esquinas da cintura. Bom seria se perderem na sintaxe das palavras inauditas, naquele som de feira animada por seres humanos buscando ganhar o dia. Seus olhos revelavam, não sei se seria bem essa a palavra, uma nova ordem de cotidiano, enquanto carros passavam por eles exibindo suas cores primárias berrantes. Eles pararam, subitamente, de andar. Ficaram um de frente para outro e, em meio ao barulho de motores, surgiu essa pergunta: “E se começássemos a dançar aqui mesmo? Como é? Sim, dançarmos feito Travolta e Uma Thurman em “Pulp Fiction”. E por que não uma dança folclórica da vila onde nascemos? - ele propôs. E se puseram a dançar sem trilha sonora. Melhor, a trilha sonora estava na cabeça de ambos. Não sem o espanto dos transeuntes vendo aquela coreografia sem filmadoras por perto. A dança acentuava mais ainda a sensação de comunhão com o mundo daqueles dois. Então eles começaram a girar como dervixes rodopiantes em busca do Samadhi. Mas essa não era uma parte da coreografia folclórica. Inventavam. Copiavam. Seriam as lentes multifocais as grandes responsáveis por aquela liberação? Muitos se surpreenderam com aquela performance ao ar livre.
    Houve um dia em que um deles prestou atenção numa fotografia que retratava um poeta cubano, nos seus setenta e poucos anos, assentado numa cadeira em um sítio, enquanto o sol cintilava na armação dos seus óculos de grau no momento do click. Aquilo suscitava uma poesia que não cabia em regimes políticos. O sol cintilava nos óculos do poeta de Havana, indiferente às pressões do poder.








     Era, também, sobre aquele sol glorioso que eles estavam a fazer sua dança típica. Tão longe e tão perto das boas coisas da vida. Aptos a identificarem um sorriso espontâneo em pacientes terminais. Muito dispostos a embarcarem em estações do metrô e tornarem toda e qualquer suposta futilidade necessária a essa narrativa. Sabedores de que as retinas amam acordar festivas ao nascer do sol e repletas de esperança quando esse sol se põe.
     Que a vida fosse uma festa clubber com pick-ups virados para o mar poderia ser o anseio de muitos. Seguindo essa vibe, tão bem o amor entre eles se aflorou. Uma sensação plena de contornos superlativos. O sorriso era mais bonito, um presente, um presente-surpresa mais emocionante. Os diálogos, então, em versão stéreo. Os beijos, esses eram vistos em alta definição.
      Sem dúvida, há uma dança de retinas para adornar os múltiplos cenários. Sim. Os olhos com o irrefreável anseio por identificação. A explícita necessidade de leitura do mundo em que pesem os ritos de sobrevivência.
      Após a performance com som imaginário, os dois seguiram de mãos dadas e sob aplausos de alguns transeuntes completamente surpresos com aquela ousadia. Eles foram para a praça dos “Livros Abandonados”. Naquele cenário, as histórias vividas se intercalavam. Ou melhor, se interfalavam entre os caramanchões, sobre os bancos de ferro pintados de branco. Era ali que a vida alcançava uma pujança admirável. Era  a praça literária do abandono e do encontro. A vibrátil alegria de encontrar um livro e o indescritível prazer de abandonar outro ao leitor desconhecido. Livros novos com narrativas digitais impressos ou épicos em capa de couro avermelhado. Pen Drives abandonados continham surpreendentes poemas gigamodernos ou fabulosos romances interativos onde os cenários se sobrepunham a cada toque para virar a página. Porém, a tecnologia não esfriava a intensidade nem rompia a tessitura da emoção. Essa era a fonte natural renovável. Folhas secas continuavam caindo sutilmente de árvores seculares. O casal trocava olhares e sorria como crianças travessas, a exemplo daquelas que eles viram em fotografias no museu dos óculos. Sim. Havia o salão onde todos foram retratados usando óculos. Alguns em inocente e despretensiosa nudez, outros no calor do ofício. Cozinheiras, médicos, mecânicos, bailarinas, colhedoras de uvas, sapateiros, palhaços entre outros. Todos de óculos, em imagens reproduzidas no tamanho real. As imagens recortadas no limite do corpo povoavam o salão adornado com a música de Philip Glass.
     Ainda que esses novos olhares sobre o mundo e sobre si mesmos provocassem um contínuo deslumbramento, aquele casal não podia se esquecer do tempo das sombras, dos dias nublados e de quantas oportunidades tiveram de seguir destinos diversos. Aquele tempo de dor e perdas comuns no processo biológico.





      - Aonde vamos agora?
      Quem teria feito essa pergunta? Ele? Ela? A dúvida revelava uma insegurança. Não. Uma incerteza maior do que uma sensação de insegurança. Isso é bem comum entre os simples mortais, ávidos por uma vida com maior equilíbrio.
      - Esquerda.
      Então, essa era a resposta da decisão, da segurança? Talvez, não. Em tudo, em algum momento, há que se decidir para além de toda e qualquer convicção.
      - Aonde vamos agora?
      Novamente temos a dúvida, após um caminho bifurcado que oferece outro caminho bifurcado tal e qual uma fábula da nossa infância. Quem há de se responsabilizar pelas consequências de uma decisão?
      - Direita.
     Pode não ter sido uma resposta segura, mas intuitiva. Até onde a intuição há de nos levar pelo caminho menos perigoso se o perigo é bem mais que uma placa de advertência num terreno desconhecido?
     - E agora?
     Agora estamos diante da necessidade de transferir a responsabilidade por acertos ou desacertos. Sozinhos havemos de ser os únicos responsáveis por nossas más escolhas e também as supostas vítimas de nós mesmos.
     - Não vamos.
    Dessa maneira, os dois construíram uma vida em comum. Ora blefando, ora decidindo com a precisão de profetas. Diante da lua. Diante do sol. De que forma eles romperiam com o tédio de horas, meses, dias? Um novo olhar sobre tudo. Um banho de criatividade. E a liberdade de escrever um poema assim:
“... até que minha memoria rudimentar desemboque em partículas particulares elétricas recheadas de significados latentes prossigo noticiando o amor de ontem de noite onde todos nós nus misturamos sem vergonha na cara transando de trenzinho tântrico cada um por sua vez no seu quarto na sua sala cozinha copa wc até  ao ar livre devo noticiar/ Bem e mal desconheço quando como uma maçã com você dentro às vezes chamo atenção faço algum sentido quase sempre tudo nem te ligo me expresso nessa luz impulsiva impossível explosiva raivosa romântica quando o luar chegar e partir e o sol levantar sair alguém estará me lendo na praça olhando para certa altura de um prédio enquanto noticio seis dezenas da loteria temperatura mínima dezenove máxima vinte e nove/Caiu o índice da bolsa de valores mulher mata homem por amor homem se joga no arranha-céu fotos recentes do telescópio Hubble mostram o nascimento e a morte de uma estrela/Sex Shop Five Star pomada anestésica celulares vibradores tudo para seu prazer/Vidente diz sorridente estar próximo o fim do mundo em cadeia internacional/Morre outra vítima da falta de amor/Robôs se preparam para votar em novo presidente enquanto a vaca caminha decidida para o brejo/Tudo se passa em mim sem lirismo algum até que um raio parta as notícias pelo céu de baunilha até que minhas luzinhas parem de enganar os olhos alheios e passem a esclarecer galáxias continuarei passando numa tela eletrônica de um prédio de concreto armado sem sutilezas...”
      Quis o tempo que eles permanecessem juntos até segunda ordem.
      - Então, como estão se sentindo com esses novos óculos? – perguntou a vendedora?/     - Bem, digamos que um perfeito nerd do Vale do Silício./ - E você?/- Eu quero experimentar agora a montanha-russa./ E foram ao parque de diversões./ - O parque não se responsabiliza se... – disse o responsável pelo “brinquedo”./ - Onde nós assinamos?
    E fizeram todos os giros possíveis na montanha-russa.
    Seguiram-se outras aventuras igualmente assustadoras. Eles viviam como se todos os dias estivessem despedindo do mundo em grande estilo. Também gostavam de usar camisetas coloridas com a frase “Carpe Diem!” estilizada.
   De alguma forma, as lentes multifocais conseguiram diminuir os níveis de estresse que o mundo lhes proporcionava por meio dos noticiários locais, das ameaças de guerras programadas, dos drones, dos vírus biológicos letais, dos psicopatas, tsunamis, vulcões, vírus cibernéticos entre outras novidades desagradáveis.
   Ela o abraçou como uma embarcação que encontra seu porto seguro após perigosa viagem. Os olhos sempre foram a “leitura” mais instantânea que podiam fazer de si próprios.
   - Onde nós estamos afinal de contas? – ele a perguntou.
   - Achados e perdidos por aí – ela respondeu. – Nos filho que seguem o próprio caminho, nos erros e acertos. Acho que estamos também em nossos óculos.
   Aqueles dois estavam muito certos de que não eram apenas duas pessoas presas num mundinho simétrico. Eram mais. Distantes de caberem nos infindáveis álbuns virtuais, na mobilidade de um tablet, na redundância ou num texto diletante. Cabiam mais na experiência impulsiva de viver, ainda que houvesse limitações.   Com toda a elegância, naturalmente, adquirida, eles não eram fisicamente tão jovens, mas se empolgavam com um bom vinho, um filme de comédia romântica não necessariamente rodada em Los Angeles. Bom era ter motivos para celebrarem a vida.   O olhar de cada um continuava sendo um filtro sem manual de instruções condenando e absolvendo o que surgia em seu campo de visão. Do sutil ao denso, nada escapava desse mecanismo de construções, desconstruções e ressignificações.
    Se havia amor entre aqueles dois, ele subsistia do resultado dessas interpretações, das reações individuais, das suposições, do constante verbo “fantasiar”. Quem disse que a habilidade nasce, apenas, da ação frenética e do ritmo incessante?


A densidade também compõe o roteiro e a dicção da existência individual. Há que se lembrar dos refrões das melodias de amor. Um instante bem na entrada de uma festa. A forma como um pássaro se comporta quando não identifica nenhum tipo de ameaça. Alguma certeza de imanência também lapidava o verbo amar como sinônimo de algo que não conhece os radicais livres e sequer a oxidação. É um fato que uma parte da sociedade sempre viu os fundamentos do amor inter pares como algo excessivamente ridículo. Os filósofos conseguem dissertar sobre isso com maior recorrência. Tudo sobremaneira ridículo do ponto de vista alheio. Completa ausência de noção em determinados momentos. Do ponto de vista daquele casal, era simetria o que se via e o que eles sentiam. Uma simetria enviesada. Se o amor contemporâneo era líquido como sugeria o pensamento moderno, a liquidez dos dois, de vez em quando, virava picolé de framboesa ou frozen natural com mirtilo. Os fundamentos da vida em sociedade até podem ter um excesso de cor local profundamente enfadonha, mas as entrelinhas continham as boas surpresas.
     Ele e ela estão presentes num tempo de amor de vampiros. Joãozinho e Mariazinha cresceram e caçam bruxas e Chapeuzinho Vermelho rompeu o limite da inocência. Esse é um tempo de olhares, dos instantâneos, das imagens significantes e da grandiloquência dos signos. A emoção que se eleva à potência digital.
     Os dois seguem pelas ruas da cidade após a ponte histórica e pictórica, certos de que não há nada que possa interromper a poesia da biologia redigida pela impulsiva dicção orgânica. De um fôlego a narrativa se constrói. A partir do acordar e ir para o trabalho. Acordar e praticar os exercícios matinais com as repetições contadas. Acordar e sorrir por saber que há esse amanhecer. Assim, um ajeita os óculos na face do outro. Decidem abrir seus cartazes de “Abraços Livres” na rua movimentada. Para a estarrecedora surpresa dos dois, eles não experimentaram o preconceito tão presente em comentários na Internet. Deram e receberam abraços em pessoas de todas as idades e não havia nisso nenhum sinal de encenação diante de filmadoras tão comuns nas esquinas atuais. O simples ato de troca afetiva incondicional. Por outro lado viam algumas crianças chorando por não poderem levar balões metalizados para casa. Nem tudo se resolve de forma incondicional.
     O casal decide entrar num restaurante e ali permanece num silêncio confortável rememorando cada abraço ofertado. Será que esses gestos perdem-se da atávica memória? O silêncio confortável era um presente que se davam. O destino da cidade







é a vibração que começa pelo entorno e culmina em seu centro. Mais uma  vez, um ajeita os óculos do outro. Ela lembrou-se do filme “De olhos bem fechados” de Stanley Kubrick. Quando fechamos os olhos, o que sucede? Há quem afirme que a realidade começa nesse momento. “Meus olhos em teus olhos” – era como se essa frase fosse exibida em Full HD na parede do restaurante. Ele desenhou um sorriso, desses smiles que vemos em redes sociais, num guardanapo e mostrou a ela. Continuaram à espreita de alguma criatividade. Será que nós dois somos idiotas por olharmos as coisas ao nosso redor dessa maneira? Será que há outro mundo acontecendo e nós, ingenuamente, o desconhecemos? Decerto, há outros mundos vibráteis ou repletos de zonas mortas. E também, algum tipo de mundo de campos minados em que caminhar livremente pode reservar riscos iminentes. Outros mundos tremendamente matemáticos e sistêmicos, onde não cabe a hipótese. Outros mundos são reinos da distopia que dispensam dislexos e impetuosos que não temem derramar uma lágrima. Também há outros mundos mais espontâneos que admitem o erro, o senso de humor. Esses eram os que mais se assemelhavam ao mundo em que eles viviam.
    Eis que veio o garçom com sua serenidade e gentileza, em qualquer ordem. Após uma refeição leve o casal voltou à rua de pedras retangulares. Será que faziam alguma diferença nesse mundo, em sua geolocalização pouco acessada? E se, de repente, eu deixar esse mundo? Ele a perguntou sem qualquer cerimônia. Ela tentou segurar o riso, mas não se conteve diante da seriedade daquela pergunta. Riu tão alto que os passantes entenderam como algum tipo de surto. Perguntou isso por que aquele vinho despertou sua imaginação? Pensando bem, acho que o vinho colaborou bastante. Veja o que escrevi no guardanapo, enquanto você se divertia com o cardápio. Ela leu silenciosamente: “Palavras-versos-sussurros/ Na plataforma do mundo/ Palavras riscam o vento/ Suave barulho de pétalas/ Heroicos sobreviventes/ Tétrica dança atômica/ Cidadela psicossomática/ Abriga hotéis da fúria/ Belicismo corrompe a beleza/ Por dentro vaso tão oco/ Entorne feliz seu vinho/ Ainda aguardo um beijo/ Nas ruas de vidro cromado/ Pegadas jazem perdidas/ Sketch contorna seu corpo/ No olho de um furacão/ Tolere o peso da asa/ Noite vasta acaba caindo/ Tão bela musa dos versos/ Seduz um vassalo febril/ Palavras –versos – sussurros/ Súbito vácuo do mundo/ Pingo pinga chove/Sopra – supra – sumo/ Sólida selva surge/ Tempo urge rugindo/ Lívido traço no ar/ Palavras-versos – sussurros/ Furam abcessos amarelos/ Túmidos obsessivos da vida/ Palavras- versos – sussurros”.








           Os olhos dela verteram uma emoção específica. Talvez repassando lembranças incríveis que estavam presentes em sua mente como relógios numa vitrine. Esse tempo presente trouxe outras necessidades a todos. A emergência de saber, comungar dos conhecimentos, das novidades que atropelam, do controle remoto. A capacidade de síntese tornou-se uma espécie de necessidade premente. Somos uma tribo imensurável de seres iconográficos. Ícones, álbuns virtuais, filmes de sessenta segundos. As vinhetas seguem contando nossas histórias. Tanto que nos robustecemos e os discursos se intercruzam. A primeira pessoa é também a segunda e a terceira e pode não ser pessoa alguma. Acabam-se convertendo em verbos transitórios. De forma surpreendente estamos passeando no jardim de nós mesmos. Alguns retoques aqui e ali, dezesseis milhões e setecentas mil cores em um monitor LCD e todas as lendas vão montando o tecido como a estratégia das Mil e Uma Noites assegurando a vida de Sherazade por mais um dia. E o passar das horas vai nos tornando mais ou menos criativos. Eles não se lembravam de estar escrito em algum livro sagrado que contos, crônicas, poemas, romances, fantasias e outras experiências radicais não poderiam jamais compor a mesma narrativa de suas existências. Importante seria não perder a capacidade de se reinventarem a cada fim de estação. O que temer nessas alturas dos acontecimentos? Nossos olhares são livros traduzindo energia luminosa em energia elétrica. Será que a coragem nascia das muitas leituras de mundo? Você ainda não respondeu à minha pergunta – ele insistiu. Ela riu-se mais um pouco e disse com toda convicção: - Se você partir feito Odisseu sem a menor certeza de retorno, eu lançarei seus óculos ao mar para que eles o tragam de volta.
       Eles andaram calmamente pela cidade das luzes fluorescentes cientes de que necessitavam de um descanso. Uma pergunta que, mesmo sendo desnecessária, permanece em suas cabeças: onde está a magia em tudo isso? O que de mágico e envolvente se passou no correr das horas desse dia? Além do sempre misterioso despertar, o que mais houve de relevante ignorando o relevo da cidade que, por si, mais parece uma cidade dentro de outra e dentro de outra. Isso lembrava um determinado brinquedo russo. Para além de um grupo de jovens ouvindo “11th Dimension” de Julian Casablancas no Pub da esquina. Parece que “magia” é só uma palavra pronta a causar algum efeito. Mas o que tivemos nesse dia? Ora, vejam só, duas crianças passeando de mãos dadas pelas ruas da cidade desenhada no caderno sem pauta. Então, esses prédios nunca passaram de 








traços livres feitos a grafite? Tudo bem que existam robôs arquitetos, mas, por enquanto, estamos nos referindo ao gênero humano que sempre foi uma máquina orgânica pronta a deixar vestígios de si ao longo da existência. Quer dizer que o dia começou com esses dois comprando óculos numa rua movimentada? Sei. E a consultora em óculos vendeu-lhes charme e elegância em forma de lentes. Espere. Eu estou tendo uma perceptível sensação de déjà vu. Agora ela via dizer que o ama. Ela a quem estou me referindo é à criança, quer dizer, à senhora de sessenta anos de idade que saiu de mãos dadas com o respeitável senhor que hoje completa oitenta anos de existência. E o que é elementar: quando ninguém está disposto a nos ensinar o pulo do gato pode ser que tenha chegado a hora de inventarmos um pulo novo. Pode ser isso que os dois tenham feito ao longo do dia.
      Ao repararmos com mais atenção notaremos que na ininterrupta história da História sempre houve uma voz narrativa que narrou dentro de outra e esta, por sua vez, narrou dentro de outra, ao infinito. As vozes anteriores acabaram soando como lendas. Quando uma pedra é arremessada num lago podemos comparar as vozes anteriores da narração com as ondas que se afastam rumo às bordas de um lago. A magia, nessa curta história, está na simples caminhada de um casal usando seus óculos.
      Se ao longo desse dia eles foram crianças, imagina-se que puderam brincar junto à ponte enquanto jogavam migalhas na direção de aves ocasionais. A ideia de assoprar bolas de sabão também não lhes parecia de toda má. O que você consegue ver dentro dos meus olhos? – Ela perguntou-lhe em tom desafiador sobre a ponte. Eu vejo o globo terrestre. – Ele respondeu com ar de admiração. Desde a mais tenra infância, eles carregavam dentro de si esse conceito de universalidade. Bem que tentavam, mas nunca pertenceram a uma determinada cidade, muito embora lá tenham nascido e naquele centro vivessem. Agora, eu vejo o seu coração. E como ele é? Bem, é preto nessa pupila. O que mais você consegue ver? Eu vejo a lua refletida em seu olhar.
      Alguém tocou um acordeon ao longe (não é muito comum ouvir alguém tocando acordeon ao longe nem ao perto). A cidade continua e os dramas humanos não significam suas limitações geográficas. Ônibus urbanos, táxis, palhaços, estátuas vivas, executivos Junior, Pleno e Senior. Tudo, absolutamente, servia para ilustrar o cenário da realidade. Eles estavam diante de uma composição homogênea dentro da heterogeneidade. A cidade conseguia viajar dentro de si mesma e dentro de cada um dos seus moradores. Nem as ruas nem as pessoas eram as mesmas no dia seguinte. A imper-







manência sempre foi a principal regra existencialista. A beleza e a centelha de amor só são sentidas diante dessa fugacidade.
        Ele estava completando oitenta anos e sequer conseguia dar-se conta disso nesse tempo presente. Foi preciso esquecer uma quantidade inumerável de fatos para avançar no tempo. O que é estar dentro de oitenta anos? – ela continuou perguntando. Bem, essa é uma pergunta quântica de mais – ele respondeu. Igualmente difícil seria lhe responder como eu transporto esse tempo em minha consciência. Mas eu lhe digo: é como estar começando. Há uma necessidade de sempre retornar aos fundamentos das coisas.
       A noite chegou com todas as suas possibilidades. Pulsante era a energia daqueles dois. Muitas foram as fotografias que eles tiraram antes do término daquelas vinte e quatro horas. Mas quem estava preocupado com términos, senão os programas diários de televisão, os trabalhadores do terceiro turno e aqueles que esperam ansiosos por um fim de semana? Eles fizeram fotos de braços abertos, saltando no vazio, olhando para o céu límpido de nuvens e ofuscado pelas luzes da cidade, dando gargalhadas, fazendo o “V” de vitória que muitos podem confundir com “V” de vingança. Amanhã eu quero usar uma camiseta com a frase “Não há despedida, mas rito de passagem” – ele disse. Você pode me dar o prazer dessa dança? – ela lhe pediu. E fizeram uma fotografia dançando no palco da vida real. Cada palavra, cada intenção de frase, cada impulso cabe numa composição. Por hora, diante das ferramentas tecnológicas, segue a breve ilusão de que o mundo é pequeno e próximo diante da vastidão dos oceanos. Considere a fauna marinha incluindo o mar abissal onde não toleramos a pressão. Considere as mais de sete bilhões de possibilidades humanas. Ninguém jamais viu o mundo com os olhos desse casal ou experimentou suas sensações. Olharam-se novamente. Pode parecer irritante, mas esse ato de um ofertar ao outro um olhar repetido à exaustão daquela convivência nunca era o mesmo. O novo sempre se revelava a cada piscar de olhos. Onde estarão nossos filhos? – ele quis saber. A lhe preparar uma surpresa – ela sugeriu.
          Eles chegaram a casa, mas nem se aperceberam de como conseguiram essa façanha. A vida continuava pronta a escrever infindáveis histórias nas próximas páginas da convivência daqueles dois. Eram duas crianças prontas a irem para a cama antes de lerem uma história fantástica. Elas levavam consigo a dúvida: teriam vivido o dia da maneira mais extraordinária que conseguiram? Teriam sido criativos e entusiasmados o bastante? Em algum muro, durante uma viagem, ônibus em movimento, uma frase passou por seus olhos: “Quando não há de ser, qualquer detalhe justifica o que não foi”.







      Sim, eles tiveram uma surpresa. Filhos e amigos apareceram em sua casa e promoveram uma festa no mínimo incomum. Todos usavam óculos em homenagem aos dois e não se tratava de fotografias. Terá sido uma forma que encontraram de demonstrarem empatia com aqueles entes queridos? 
    O distinto senhor octogenário cortou seu bolo de aniversário ao som de descontraída música instrumental. Lembrou-se da coleção de carrinhos metalizados com os quais, de quando em vez, diverte-se bastante e que, por um milagre, manteve-se intacta até hoje. Há também uma guitarra elétrica que ele costuma dedilhar em dias irados. Vieram em sua lembrança os bons amigos livros, vários impressos, dos quais ele não consegue separar-se mais por simbolismo do que por apego desmesurado. Todos encadernados com capricho manual. Eles ajudavam a contar a história comum desse homem dentro do tempo presente. Em momentos de um branco mental, uma frase isolada, um parágrafo conseguia mudar seu foco. Não mais do que o sorriso, o olhar e o companheirismo da senhora Ela. Cada detalhe estava bem ali, naquela celebração de vida, em sua mente, em seu contentamento, em seus óculos, nas árvores que ele viu naquela manhã, na sempre envolvente tarefa de preencher as horas com vida abundante. Cada nota de acordeon, migalhas, lendas, traços de grafite, cores, moedas tilintando, retinas, beijos e incertezas estavam a fazer parte de uma ciranda que compunha a sinfonia daquele dia. Não raro, uma sensação de que tudo está sempre a alguns passos do paraíso e, a seguir, volta a bailar distante invadia seu cérebro. Essa era a sua história. Esse era o homem comum “escrevendo” seu romance-diário unindo mal traçadas linhas com bom humor e doses generosas de ironia. Por mais que as noites fossem animadas e instigantes sua expectativa por novas auroras revelava-se cada vez mais real. Tudo que ainda estava por fazer e sequer fora planejado. Sua adrenalina só entornava diante do imprevisível, daquilo que subvertia o roteiro. Em seu pensamento, a magia que permeia a realidade reside onde os roteiros não conseguem descrever.
     Outras dúvidas ainda pairavam em suas mentes. Quantos anos couberam naquelas vinte e quatro horas?  Quantas histórias teriam vivido? Quantos personagens eles representaram além de sim mesmos? Do ponto de vista de Ele e Ela, cujas identidades não pertencem a lugar algum, essas são questões, até certo ponto, menores. Importava-lhes o sabor dos momentos únicos. Ao tirarem os óculos para, enfim, adormecerem, uma certeza sussurrada tomou conta dos dois. “O comum segue sendo o lugar incomum por excelência: o terreno indômito do coração”.   


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[O conto " De magia e lentes multifocais" participou (2013) do concurso da Prada que, agora, também incentiva a Literatura  por meio da sua fundação. Investindo no ramo de lentes (óculos de grau), a Prada sugeriu um tema voltado para esse segmento.
Como mimo, eu recebi, via SEDEX, um livraço com a história dessa gigante da moda mundial. Aqui, no blog, eu apresento uma releitura do texto integral linkando as múltiplas referências textuais. ]


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