terça-feira, 9 de abril de 2013

O autor está nu em Arroubos e Rompantes

O autor está nu

Por fim, posto que não poderia ser por inicio, acabei de ler o meticuloso "Primeiros Versos - Uma Academia" do duque das letras de Contagem (a alcunha é de minha invenção), Vinícius Fernandes Cardoso.

Nada me tira da cabeça que o referido autor seja uma espécie de reencarnação de um membro de família nobre e com brasão a desfrutar do bem querer na Corte Portuguesa  nos idos ( e botem idos nisso) do Século XV.

Enquanto escrevo ressalto que estou assentado em uma cadeira com rodinhas e assento estofado, no estilo superintendente e beberico uma taça de vinho Pérgola que descansa sobre uma mesa de granito que suporta meu notebook ligado e baixando um e-book via torrent - nada mais politicamente incorreto. Eu, mesmo, estou usando uma caneta esferográfica e um pequeno caderno espiralado. Vá entender.

Descontando a ação estimulante da bebida industrializada procuro rememorar o que li. E, ainda, que o autor fique cheio de brejeirices desnecessárias, no afã de justificar, o tempo todo, o teor daquilo que será lido sabe-se lá por quais olhos interessados (os meus, por exemplo), procuro avaliar (palavra cretina) sem qualquer ressalva o resultado bruto desse formato. Fato é que eu tive contato com alguns dos textos em outros momentos e de forma esparsa. Sequer naqueles momentos censurei o autor.

A mim pouco importa se são versos de principiante ou veterano. Busco essência naquilo que leio. Um tipo de essência que extrapola o vade mecum acadêmico como sói acontecer ou por similitude. Não que exista nessa postura sinais de uma rebeldia romântica ou desprezo pelas "normas" seculares.

O grande "problema" da literatura é o de o (a) leitor (a) tomar aquilo que lê por verdade absoluta, sem qualquer possibilidade de abstração, ainda que ela esteja a olhos vistos. Nesse caso, o (a) autor (a) é um (a) miserável, considerando que ele (ela) redige tudo ao seu bel prazer. O Brasil foi, primeiramente, descrito por Pero Vaz de Caminha que bem poderia ter redigido um diário de bordo retratando o aspecto humanista de tão pitoresca frota, mas ateve-se aos autos. Então, estamos diante de um problema insolúvel? Nem tanto. Insolúvel, de fato, é a pouca vergonha na "cara" de quem "heroicamente" (por favor, não me condene à forca pelo excesso de aspas) se propõe a escrever. Veja o que os hebreus fizeram com a humanidade (que Deus se apiede da minha pobre alma) sob premissas verdadeiras. Mais adiante no tempo vimos o que um homem eivado de loucura fez com o povo judeu, sob falsas premissas. E hoje há quem tenha a desfaçatez de afirmar, em público, que o fato último não passa de ficção (algo sobre o que há farta documentação escrita e algumas imagéticas, além das sepulturas coletivas). Daí o abacaxi acaba ficando para os leitores que precisam usar de abstração, um recurso tão escasso no "pobre"  Século Vinte e Um, salvos os amantes do gênero fantasia (esses sabem o que significa viajar pelas palavras).

Retornemos ao autor que é um "pobre coitado" e saberá usar de abstração ao ler essa minha afirmação entre aspas. Eu que também escrevo e padeço dos mesmos adjetivos.

Na maioria dos poemas desse livro ouso escrever que o eu lírico não é contemporâneo, se por contemporâneo entendemos o que acontece no hiato que vai do nosso surgimento ao nosso desaparecimento biológico. Se, como o poeta afirma, tais versos são imaturos, a mim soam como uma imaturidade arquitetada. Aqui lemos poemas que mais se assemelham a sonetos que fogem a regra obrigatória. Pode isso assemelhar-se a uma anarquia, considerando o advento (kkkkk) da Semana de Arte Moderna (ou a legitimação da panela aristocrática paulistana de antanho). Os versos de Vinícius Fernandes Cardoso perpassam uma melancolia ácida (o que seria uma cor local típica dos poetas da época da peste- viver quarenta anos, então, era um milagre rejubilante), um "negócio" entre o estoico e o cínico no sentido primeiro desta palavra. Ao mesmo tempo estamos diante do eu lírico da corte que nos empresta seu olhar diplomático e humanístico que, ora nos esbofeteia com luva de pelica rosa, ora nos acaricia com luva de agulhas.

Acredito que o próprio poeta afirmar que seus poemas são ruins soa pretensioso. Também afirmar que os maus poemas são os mais sinceros é opinião de foro íntimo - nesse caso refiro-me à citação usada pelo poeta. Uma tentativa piegas de desestabilizar os leitores. Considere a possibilidade de quem ler andar poderosamente armado e pronto para receber as terceiras intenções do poeta. Alguns editores e escritores teimam em tratar leitores em geral como seres descompensados incapazes de alcançarem o reino de ambrosia onde residem os "pobres coitados". Didatismo excessivo emana ranço acadêmico que é sempre bonitinho e aprazível entre pares, mas dispensável entre leitores de todas as paragens. Nem, por isso, é menos autêntica uma manifestação literária. Deficiência autoral, quem não as tem?

Voltemos aos poemas juvenis de Vinícius Fernandes Cardoso, que nos premia com determinados versos  e estrofes de difícil esquecimento. A saber: "Talvez foi de tanto buscar longe,/reis, safiras, impérios e rubis,/que não percebi demente,/que minhas joias estavam aqui." Nota-se também o impacto em "...e assim vamos adiando a maior luta: a interior,/até que chegue a maior fuga: a morte."

Somos pegos também em versos existencialistas: "Sou o rancor de uma noite morta?/Sou o desespero da rejeição impiedosa?/Sou a fome dos momentos que me negam?/Sou o deus derrotado do meu mundo?"

Mais adiante o autor rompe com o suposto formalismo e joga-se em "Anti-palavra, contracultura", “Ode à Distração” e “Odisséia Imaginária...” - o livro seguiu a ortografia antiga-, entre outros rompantes”. Vale lembrar que tais poemas requerem dissertações mais específicas.

Como aqui fui convidado a fazer um prefácio e não um ensaio, eu deixo aos leitores todas e quaisquer impressões acerca desse livro onde o autor se despe, mas adverte sabiamente, caso alguém queira fechar os olhos antes ou cobri-los com a mão deixando um espaço entre os dedos.

Senhoras e senhores, o poeta está nu!



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