quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A lenda do intervalo

                                          Lecy Pereira

Numa placa feita dos restos de uma caixa de madeira, alguém

escreveu de maneira tosca: “O QUE É VIVER?” e a pregou numa beirada de estrada como quando fixam cruzes pela morte de motoristas ou pedestres.

E o garoto perguntou ao pai que guiava o carro que acabara de passar pela placa:

-Então, o que é viver?

-Você quer que eu responda segundo algum livro sagrado ou dê a minha própria opinião?

-Diga o que lhe vier à cabeça.

-Bem, viver é o hiato entre o surgir e o insurgir.

-E o que acontece nesse intervalo?

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Após trocarem um beijo melancólico, a moça em seu vestido floral decidiu que não mais se veriam.

Seria bom para todos que policiavam aquele namoro. As respectivas famílias vigiavam os dois por vinte e quatro horas. Qualquer troca de olhares era detectada por parentes dos dois. De alguma forma, aquelas famílias passaram a viver somente em função dos jovens. Mas sempre havia deslizes. Foi assim que eles se beijaram no subúrbio da cidade.

- Espere – disse o rapaz. - Precisa haver uma solução melhor para nós.

- Qual? Romeu e Julieta? Shakespeare deve estar cansado de tanto plágio ou releitura.

- Vamos fugir? Sumir no mundo? Só nós dois?- E você acha que isso é vida?

- A gente pode ser feliz.

-Essas coisas funcionam em livros de romances irresponsáveis.

-Então viveremos para sempre vigiados. Isso é vida?

-Você me ama de verdade?

-O que você acha?

-Então acabou tudo. Que dizer, não acabou. Eu entro para um convento e você segue para um seminário. Nossas famílias param com essa loucura de vigilância.

-Mas isso parece a Idade Média.

-Tanto faz. O que importa é o amor. O amor. O amor.

-Mas a gente...

-Desapareça, agora. Eu te amo.

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O pai do garoto fez um silêncio premeditado e, em seguida, respondeu:

-Não sei. Fabrica-se lendas mais ou menos verossímeis.

E o carro desapareceu na cerração.

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