sexta-feira, 9 de março de 2012

Boletim UFMG traz opinião sobre "Primeirapessoaplural"

Primeirapessoaplural

Marcos Fabrício Lopes da Silva* 

Saio da leitura de Primeirapessoaplural (2008), obra de Lecy Pereira Sousa, com a confiança de que a poiesis pode desarticular o crescente egocentrismo que vem ocupando com celeridade o tecido social. Poeisis, segundo os gregos, significa minha obra, aquilo que faço, que construo, em que me vejo. Isto é, a minha criação, na qual crio a mim mesmo na medida em que crio no mundo. Sobre tal assunto, o poeta, no texto “Interpretação”, revela: “sabemos que a poesia geme/Feito gema de ovo/Antes de quebrar a casca./Depois, tudo que vemos/é nossa pintura íntima”. Do contrário, ocorre o que Marx chamou de alienação: todas as vezes que eu olho o que fiz como não sendo eu ou não me pertencendo, eu me alieno. Fico alheio. Mora aí um grande perigo: à maneira proposta por Lecy, em “Ingrediente do mix – 1”, ganha enormes proporções a formação de “seres fragmentados/numa solidão coletiva”.
O indivíduo, ao pregar excessivamente a importância do “só eu”, fez com que a cultura se atrofiasse em um sistema competitivo marcado pela desagregação intra e interpessoal. Logo, a ordem social se deforma para atender aos caprichos do status quo, constituído por “aqueles que sempre fizeram tudo sem nós/aqueles egoístas da terceira pessoa do plural”, conforme definição ímpar concebida por Lecy Pereira Sousa, em “Mix de mim”. O culto à impessoalidade produz um estrago desmedido na concepção afetiva do sujeito, ao conceber um eu-tirânico, com direito à prática da violência e de abolição do outro. 

Em resposta a essa prática nociva, a voz poética de Lecy desponta, no texto “Primeirapessoaplural”, como veículo de original inquietação contestadora: “qual humano terá coragem para dizer:/ ‘Eu te amo de verdade’/ Cara-a-cara com o mundo/ No instante da última comunhão?”. O alerta em questão apresenta como virtude a abordagem da seguinte dinâmica afetiva: ser humano é ser junto. Ou seja, é preciso saber que a nossa convivência exige uma noção especial de igualdade de existência. Qualquer forma de arrogância prejudica a viabilidade deste nobre propósito. 

O arrogante é incapaz de ter a visão de alteridade. Razão central da ética, ouso dizer que a relação é a grande categoria educativa do pensamento e do sentimento. Em Ecologia, mundialização e espiritualidade (1993), Leonardo Boff atesta com primor a seguinte conjuntura holística: “tudo o que existe coexiste. Tudo o que coexiste preexiste. E tudo o que coexiste e preexiste subsiste através de uma teia infindável de relações inclusivas. Tudo se acha em relação. Fora da relação, nada existe”.
Nesse contexto, a anterior pergunta lançada no poema de Lecy Pereira Sousa tem pelo menos dois méritos: a) questionar o ímpeto do Homem em se colocar como centro do ecossistema, “importunando uma comunidade de formiguinhas atravessando a parede”, como diz o poeta ironicamente, em “Poemaremos sem fim – Parte II”; b) criticar a nossa prática ordinária de rotular o “eu” como instância familiar e o “outro” como estranho absurdo. A respeito, convém recordar que os latinos tinham uma expressão para “eu”, ego, e usavam duas concepções para se referir ao “não-eu”: uma é alter, que significa “o outro”, a outra, alius, para indicar “o estranho”. Palavras em português que vêm de alius: “alienado”, “alheio”, “alienígena”. Entram nessa categoria também os vocábulos “forasteiro” e “estrangeiro”, que designam aquele que não é daqui, que não é como nós, sendo considerado, por isso, de menos valor e apreço. Trata-se, como podemos ver, de uma percepção prepotente e preconceituosa.
O individualismo fica evidente também na substituição do indivíduo pelo individual – entendido como exclusivo, e não como identidade. Face ao exposto, poeticamente, Lecy Pereira Sousa faz lembrar a oportuna distinção que há entre as noções de autonomia e soberania. Como “primeirapessoaplural”, a gente é unidade autônoma e não unidade soberana. Tem bastante sentido isso, pois “soberano” vem do latim superanus, super (sobre), isto é, aquele que está acima de todos e não se subordina a ninguém. Autonomia, por sua vez, a partir dos vocábulos gregos autós (por si mesmo) e nómos (o que me cabe por direito ou dever), indica limites respeitosos oriundos da vida em meio a outras pessoas, também elas autônomas. Soberbamente, a cultura egocêntrica se fundamenta a partir do enfraquecimento da identificação e empatia com o outro, gerando um quadro de indiferença que vem desfigurando a nossa “pintura íntima”. 

Em oposição à “banalidade do mal”, como observava Hannah Arendt, o poeta se lança na apaixonante tarefa de construir bases sólidas em prol do aprimoramento existencial, projetado em ações coletivas. Nesse sentido, “Boas-Novas” é um poema emblemático contra o desencantamento generalizado e o fundamentalismo tacanho. No texto em questão, Lecy Pereira Souza verseja: “Grandes são nossas esperanças/Para novos tempos/Novas catedrais/Neopop-barroco/Novos Dantons sem guilhotinas/Novas Belas Épocas mundiais/Novos Inconfidentes sem Silvérios/Novos Galileus sem inquisidores/Novas Palestinas sem coiotes/Novos céus sem estrelismos/Novas consciências/Para novos Iluminismos/Novas Renascenças”. 

Materializar o significado profundo de tais propostas pressupõe a compreensão plural de que existe uma beleza em movimento chamada virtude ética. Só ela pode nos livrar do vício da idiotice. Vale lembrar aqui o conceito original de idiota, proveniente da expressão idiótes, que, em grego, significa aquele que só vive a vida privada, ou seja, fechado dentro de si. Aberto, bem diz o poeta, o eu-comunitário se apresenta ao mundo como “primeirapessoaplural”. A poética da relação assim prospera. 

*Jornalista formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Doutorando e mestre em Estudos Literários/Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG. 


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