sábado, 29 de outubro de 2011

Uma guerra desigual


                                                                                                                                    ©  Aldo Cordeiro



        O prefeito da cidade do Rio de Janeiro declarou que, neste ano que se aproxima, teremos a maior epidemia de dengue da história da cidade.  Os culpados são muitos, desde o clima que vem ficando mais quente, aos órgãos públicos que não fazem uma campanha preventiva, a população que não faz a sua parte etc etc.
Capa do caderno Planeta Terra, do jornal O Globo, 11.10.2011,
retratando um pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz
estudando o aedes aegypti.

        Não vou entrar nestas questões, que precedem os ataques e as defesas.  O que gostaria de tratar, de um modo mais ao gosto dos cronistas do que dos pesquisadores,  é sobre os inimigos nesta guerra: nós versus os mosquitos. 

        Afinal quem é o bandido, quem é o mocinho?  No nosso modo maniqueísta de ver, as guerras são compreendidas por esta separação básica.
        No entanto, algumas nos surpreendem.   Principalmente, quando descobrimos que não existem apenas dois lados.
        Vejamos.

        Se um mosquitinho desses falasse, seria mais interessante.   Poderíamos colocar numa mesa redonda, um mosquito, de preferência do sexo feminino, e um humano, talvez um biólogo.  Também seria interessante uma autoridade religiosa, um político. Diferentes pontos de vista.    Como isso não é possível, vou tentar descrever os interesses dos dois lados, com um pedido: esqueçam que são humanos, esqueçam as idéias preconcebidas e vejam com isenção de ânimo.

        Começo pelo mosquito.  Uma fêmea, um animalzinho mínimo, de apenas 4 milímetros de tamanho.   Parte de seu projeto na vida seria o de todas as fêmeas, basicamente. Reproduzir, cuidar da prole, povoar o mundo.  Para isso, ela precisa de alguns requisitos fundamentais: alimentação durante a gravidez e cuidados na hora do parto. 
        A sua alimentação é bem simples: sangue humano. 
        Sai voando por aí, ao sabor do vento, e quando encontra um corpo distraído, dá uma mordidinha e leva um pouco de sangue.  Sendo uma fêmea saudável, alimenta seus futuros filhotes com algumas gotas de sangue e logo vai dar à luz, em seus longos 52 dias de vida, cerca de 200 rebentos.  
O sangue que ela tira não nos faz falta.  Poderíamos conviver, seres humanos e mosquitos sem maiores consequências. O excesso deles, mataríamos.  Outros bichos poderiam ser nossos aliados naturais, neste combate. 

        Acontece que, no meio da história, tem um vírus.  Sempre eles. E o miserável infecta a dedicada mãe. Pensem no desespero!  Seu tempo de vida diminui para 33 dias.   Sua necessidade de alimentação continua, agora mais premente. Precisa ter a certeza - básica em quase todas as espécies (ou todas?) - de que os filhotes nascerão.  Para isso, quando chega a hora do parto, ela procura distribuir os filhotes em lugares separados, para que não fiquem todos juntos, sujeitos a algum predador. Procura lugares com água limpa, pois essa história de nascer na sujeira é pra quem não tem opção na vida.    

        Infectadas elas, as mães zelosas, infectados nós, os alimentadores naturais de sua sobrevivência.  Rindo à toa o vírus, porque também quer viver e se reproduzir, não importa onde, e conseguiu seu objetivo.


        Vamos pensar no outro lado da guerra, resumidamente, porque sendo vilões de nós mesmos, tudo que for escrito aqui é redundante:  falta de cuidado na gravidez, crianças jogadas pelas ruas do mundo,  reprodução sem controle, alimentação inadequada pela vida à fora, lixo jogado por tudo quanto é lado, destruição do meio ambiente, guerras estúpidas entre nós mesmos (até pra saber quem é o deus que vai nos receber depois de tanta bagunça aqui em baixo), alguns humanos explorando muitos outros. 
        Nem precisamos de inimigos, nós mesmos nos destruímos.

        Para combater o mosquito, acostumados a resolver as grandes questões da vida na pancadaria, sairemos feito cowboys malucos, entupindo a cidade de fumaça ou de raquete na mão, eletrocutando os pequenos inimigos; e enchendo de lucros os produtores de repelentes.
Mais uma vez, desta vez muito pior, segundo o Prefeito, o público vai culpar o particular, o particular vai correr desesperado com excesso de dores e falta de hospitais (tomara que os hospitais de campanha do Exército humano chegue antes do caos tomar conta da cidade).

        É esta a guerra que se aproxima.  De qualquer forma, perderemos nós e os mosquitos, vítimas de um planeta exaustivamente desequilibrado, que os humanos insistimos em dizer que é nosso e que os vírus garantem que estão se preparando muito melhor para o futuro.


Rio de Janeiro, final de outubro de 2011, um mês antes da guerra ficar mais ensandecida. 
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