quinta-feira, 21 de julho de 2011

Contagem 1968: Um pouco de História

Contagem 1968: Um Pouco de História


Greve dos Metalúrgicos
Pouco ou nada se fala no Brasil sobre o ano de 1968. Conhecido como o ano que não acabou. Muito há que falar ainda hoje. O que interessa para este breve texto é a greve ocorrida na cidade de Contagem, Minas Gerais, e que mobilizou 16 mil dos 21 mil trabalhadores das indústrias da região.

A greve nasceu nas fábricas. “Às 7 horas da manhã do dia 16 de abril de 1968, os operários da trefilaria da Siderúrgica Belgo-Mineira pararam as máquinas e ocuparam a fábrica. Logo, 1.600 metalúrgicos estavam em greve, a primeira da história da empresa”. Três dias após os metalúrgicos da Sociedade Brasileira de Eletrificação (SBE) aderiram ao movimento e, no dia seguinte, os 4.500 empregados da Mannesman pararam, trazendo junto de si, pela ordem, os trabalhadores da RCA, Pohlig Haeckel, Industram, Cimec entre outras (MIRANDA, Nilmário. A cidade operária símbolo. In Teoria e Debate, ano 21 maio de 2008, p. 21).

Os metalúrgicos tinham vencido o medo. Nada adiantaria a intervenção no movimento sindical. A greve surgiu dentro das fábricas e ali se instalou. O coronel-ministro Jarbas Passarinho, ao analisar o movimento, pôs em prática a “guerra” que prometeu frente aos grevistas. Disse que a atitude dos trabalhadores era ilegal, além de um desafio ao governo, e que os grevistas poderiam ser despedidos e enquadrados na lei de segurança nacional.
Acertou o não-pagamento dos salários dos dias parados com o patronato e a caça de um por um dos trabalhadores em suas casas. O parque industrial foi ocupado por mais de 1.500 policiais militares e as assembléias foram proibidas, assim como a distribuição de panfletos e manifestos. No dia 26 de abril, os últimos grevistas voltavam ao trabalho, em uma vitória aparente dos patrões (MIRANDA, Nilmário. A cidade operária símbolo. In Teoria e Debate, ano 21 maio de 2008, p. 22).

Mas qual foi o saldo real da “campanha” de Contagem? É que este movimento tornou-se um marco. Introduziu no Brasil um novo modelo de organização de trabalhadores. Recusou a lei antigreve e combateu o arrocho salarial de mais de 12% contado desde a tomada do poder pelos militares.

Levou o governo a conceder primeiro aos operários de Contagem e, depois, a todos os operários brasileiros, um aumento salarial de 10%, primeiro desde 1964. Mais: o patronato viu-se impedido de evitar a greve, perdendo também o controle sobre a massa trabalhadora (MIRANDA, Nilmário. A cidade operária símbolo. In Teoria e Debate, ano 21 maio de 2008, p. 22). Dependia ele (patronato), agora, do poderio do Estado para combater o movimento paredista. Os trabalhadores se fizeram ouvir de verdade.

O que se pode dizer é que os trabalhadores de Contagem, em quem se inspirariam os de Osasco, São Paulo, para um movimento posterior, mostraram com clareza que são eles (trabalhadores) os verdadeiros construtores da sociedade.










Suas lutas definiram uma identidade ativa, não mais moldada ao bel prazer dos poderosos, mas sim na atividade viva da massa trabalhadora, sem qualquer paternalismo que levaria à sua domesticação (como muito ocorre hoje), buscando evitar sua alienação extrema, esta sustentada por uma tal cidadania regulada fruto da cultura burguesa posta (CATTANI, Antônio David. A ação coletiva dos trabalhadores. Editora SMCultura – Palmarinca, Porto Alegre, 1991, 36/40).

A greve de 1968 em Contagem jamais foi ou será esquecida. Ela significou a novidade na organização e resistência dos trabalhadores. É o embrião de movimentos de bairros, favelas e moderna organização sindical. Fez com que os militares sentissem o poder da classe operária, poder este que lhes é nato, como principal agente de transformação e emancipação social. De contagem surge Osasco. De Osasco a Democracia floresce.


Texto extraído de: Rafael da Silva Marques – Juiz do Trabalho.Artigo publicado originalmente no jornal Gazeta do Sul



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