segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Venha ver Senhor Cabral!

                                                                                                                                                                                         

Quando se fala em descobrimento do Brasil qual é a primeira imagem que vem à sua mente?

Inicialmente pode ser aquelas gravuras “catequéticas” de navegadores cheios de meiguice fazendo contato com aqueles índios com cabelos muito bem cuidados e aparados no melhor estilo emo.

As imagens “aproveitadas” nos livros de História em nada lembram o verdadeiro estágio no inferno que viveu a esquadra de Pedro Alvares Cabral antes que aportassem felizes e sorridentes num “porto seguro” na terra brasilis. Refletindo um pouco é possível compreender o ranço de cafajestice, pedofília e servidão que de forma oscilante vive assolando o “povo” brasileiro. Quem pode explicar com um pouco mais de propriedade sobre a formação da “sociedade” brasileira são os sociológos Gilberto Freyre e Roberto DaMatta.

Quem veio dentro daquelas naus e caravelas acompanhando Cabral naquela aventura de gente disposta a encontrar um novo mundo, uma terra sem males? De fato, muitos encontraram um novo mundo( quando retornavam a Portugal) após o mar tragar suas embarcações por completo em tempestades tão assombrosas que poucas pessoas verão nessa vida com os próprios olhos. Mas quem veio? Mulheres? Não. Nenhuma portuguesa seria louca o bastante naquela época. Homens? Sim. Transbordavam homens da corte e homens degredados (aquele tipo de cidadão assassino, estuprador, ladrão de galinha, bandido por opção, etc.). Também vieram crianças. Acredite. Vieram crianças que eram usadas das mais diversas formas em alto mar. Limpar vômitos, fezes, fazer remendos em velas, servir sexualmente aos marinheiros. Essa era a vidinha das crianças nas embarcações daqueles que “descobriram” o Brasil, segundo o escritor Eduardo Bueno em seu livro de bolso “Descobrimento do Brasil: o maior acontecimento da nossa história”, publicado pela L&PM Pocket em 2009, uma verdadeira pérola sobre o nosso passado histórico.

Com uma forma agradável e sincera de abordar o tema, o autor parece não ter o rabo preso com qualquer dinastia. Respeitoso na maneira de tratar a realeza e os grandes navegadores ( nenhum de nós tem uma ideia precisa do que fosse enfrentar um mar remoto num tempo em que se acreditava em monstros marinhos,não estamos falando de baleias, e até no grande abismo que engoliria qualquer embarcação que atingisse o limite de navegação), Bueno revela aspectos pictóricos e pitorescos dessa façanha. Só uma palavra pode definir a obsessão daqueles homens: loucura, além da excitação pelo desconhecido. Pense na alimentação daqueles navegantes, a falta de higiene ( ninguém usava lavar as partes pudendas e banho para os europeus era considerado um pecado). Pense no cheiro “agradável” das embarcações por quase dois meses seguidos entre céu e mar. Tudo o que a imaginação puder recriar a respeito não retrata a verdadeira dimensão do fato.

No livro também ficamos sabendo que Hans Staden, um fidalgo alemão que fez belíssimas e raras ilustrações da natureza exuberante do Brasil, uma espécie de fotógrafo daquela época, só não foi devorado pelos indígenas antropófagos (aqueles que comiam seres da mesma espécie sem fazer cara feia) porque se humilhou e implorou a tal ponto que os índios desistiram de comê-lo temendo alguma indigestão.

O livro de Eduardo Bueno (as ilustrações são de Edgar Vasques) é uma ótima oportunidade para qualquer pessoa conhecer a história do descobrimento do Brasil sem maquiagens e maniqueísmos. Uma história nua, posto que a mentira ou a omissão não contribui em nada para nos melhorar enquanto descendentes desses “descobridores”. E se o que nos move é o tempo presente, enquanto não passamos o passado a limpo, se possível com muitos banhos, seguiremos cativos de um tempo que agora reside no imaginário e nos livros de História.
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Por Lecy Pereira Sousa
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