sábado, 13 de março de 2010

História kafkiana

Fiquei sabendo por meio de um jornal impresso e online também que após oitenta anos de sua morte, a república Tcheca acaba de publicar a primeira biografia do escritor Franz Kafka.




Ora, ointenta anos não são oitenta dias raciocinando pelo lado mais dedutivo da história.



Daquele país(Tchecoslováquia) tantos outros escritores surgiram e sumiram nesse intervalinho de tempo. Outros alcançaram a fama como Milan Kundera ( um dos meus escritores prediletos – o romance “A vida está em outro lugar” continua sendo um soco em meus rins e pode ter contribuido para que eu ousasse a suposta poesia contemporânea), um poeta virou presidente em Praga, algo impensável nesses trópicos.



Não é pleonasmo dizer que o povo Tcheco consome e produz uma cultura bem próxima da erudição e do acinzentado e frio regime político de outros tempos.



Kafka que, talvez, em sua conturbada existência não tenha imaginado um mundo pop com o atual, onde as biografias são publicadas logo no início da carreira da personalidade, virou autor cult até no Brasil. De tão cultuado e citado, Kafka se transformou num popstar, personagem de palavras cruzadas e é de se estranhar que sua obra não tenha se tornado enredo e alegoria para escola de samba na Marquês de Sapucaí (até agora).



Convenhamos, oitenta anos é um tempo que cabe em lembrança e esquecimento, mas como dizem os esperançados: nunca é suficientemente tarde. Por exemplo, Maria Quitéria foi uma mulher que ajudou a construir a História do Brasil. Em cem anos ninguém se ofereceu para escrever uma biografia dessa personalidade (não olhem para mim). Hoje há presidentes vivos tendo suas histórias de vida filmadas e exibidas nos cinemas com bilheteria, é lógico.



Algumas biografias são escritas por conveniência, outras por status, outras pelo prazer proporcionado ao biografado. Há biografias para cães, gatos, cavalos, etc. Como podemos notar biografia não é bicho de uma cabeça só.



Mas oitenta anos para se escrever uma biografia de Franz Kafka em sua terra natal? Falta de competência seria a mais esculachada das desculpas.



Um autor que é lembrado por adolescentes pelo personagem que, um “belo dia”, acordou transformado numa barata. É impossível não se surpreender com a súbita mutação do personagem Gregor Samsa. Obviamente Kafka vai além de “A Metamorfose”.



Bom será se não precisarmos esperar as mesmas oito décadas para lermos uma tradução competente para o Português da biografia desse autor que teve curta existência física para os padrões europeus, mas marcou leitores do mundo inteiro com sua criatividade literária.
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