segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Não verás Paris nenhuma





                                                                       Lecy Pereira Sousa



Não. Eu não lerei "Hell Paris 75016" de Lolita Pille uma segunda vez.
 
A primeira vista trata-se de um roteiro de filme exótico em Cannes e X-Rated Soft nos Estados Unidos da América, o país da Estátua da Liberdade. Filmes que retratam a orgia da superclasse não são considerados agressões pornográficas.
 
Após caudalosas leituras ano após ano fica, digamos, um pouco difícil a sensação de surpresa ou constatar um suposto ineditismo literário.Vejamos, a Geração Beat americana que só não fumou o Grand Canyon por ele ser de formação rochosa. Além disso, a literatura daquela "turma" (Jack Kerouac, Alen Ginsberg, William Boroughs entre outros) em nada se assemelhava a um Querido Diário Cor de Rosa. Havia poesia, compromisso com o registro de uma época, desencantos históricos, fora a porralouquice de uma juventude desvairada. Hoje em dia "todo mundo" quer parecer Beat, "todo mundo" quer ser meio "James Dean", mas a resposta iconográfica vinda do mundo musical é Marilyn Mason e Lady Gaga e aqui qualquer comparação torna-se impossível. Antes havia paixão. Hoje há marketing.
 
Hell me dá pena (a de galinha também), mas para ela que diferença isso faz? Ela a quem me refiro  é a personagem principal do livro, uma jovem que aparenta ter uns 50 anos de libertinagem e cheiração ininteruptos. Qualquer semelhança entre Lolita Pille e sua personagem não há de ser mera coincidência. No paralelo brasileiro, a ex-garota de programa Bruna Surfistinha foi direta aos finalmentes em "O Doce Veneno do Escorpião" e bombou nas vendas. Há uma boa fatia de leitores brasileiros interessados na vida sexual alheia principalmente se  essa vida pertencer a superclasse. Revistas mais conservadoras não cansam de falar quem está ficando com quem a cada semana. Nessas horas todo, suposto, pudor voa pelos ares como balões de preservativos distribuidos em salas de aula em palestras sobre Educação Sexual Contemporânea. Há também documentos-verdade como "Meninos do Tráfico" escrito por MV Bill que retrata a subvida daqueles que as patricinhas e mauricinhos regados a maconha, cocaina, heroina, crack e derivados não conseguiriam viver sem. Quanto ao comportamento sexual desses extremos parece não haver muita diferença, além dos cenários de cada um. Quem nada em grana pode trepar de manhã em Saint Tropez e à tarde fazer uma orgia na costa do Mar Mediterrâneo, ou uma performance a dois numa pista de dança de um clube VIP parisiense. Possibilidades.
 
A turma de Hell está se lixando para os noventa e nove por cento de pobres e semipobres que jamais terão o mesmo poder de consumo VIP. Jamais poderão exibir um Cartão de Crédito Ilimitado ou relógios exlusivos. Nascerão e morrerão ouvindo histórias fúteis e os escândalos da superclasse. Consumo irrestrito e sexo idem, carrões e ambientes excludentes: eis o subterfúgio da prole dos endinheirados contemporâneos. Ainda hoje, a elite religiosa chama de minoria a suposta classe das prostitutas e dos homossexuais (para ficar no rótulo). Minoria mesmo é o topo da pirâmide, as famílias bilionárias circunstanciais. Há um erro de tipificação que muito agrada a elite intelectual. Desde a Idade Média os "poderosos" enfrentam problemas vertebrais com sua descendência. Jovens exageradamente ricos não têm algo de valoroso a fazer, não se engajam em círculos virtuosos. Vivem de excessos e descobertas sexuais como se essas atitudes fossem lhes conferir algum sentido existencial (com exceções é vero).
 
Lolita Pille pinta o desatino de uma juventude parisiense inviável como modus vivendi para o "resto" da sociedade . O único risco, se é que ainda há riscos num mundo onde não há mais limites e os fatores de repressão são válidos, apenas, para os mais pobres, é de os leitores tomarem a narrativa como referência comportamental, ou seja, passarem a viver de fantasia. Hell pode transar à vontade que sempre haverá uma clínica abortiva na esquina que não a importunará com interrogatórios. O dinheiro silencia qualquer valor moral e ético. Hell pode cheirar carreirinhas até o nariz sangrar que nenhum policial a importunará por aquisição e consumo de drogas. Hell pode fazer um "programa" na biblioteca da sua casa que nenhum membro da família há de censurá-la. A superclasse é moderna e sutil. Sempre haverá os psiquiatras, psicólogos, psicoterapeutas que cuidarão de Hell caso ela apresente algum distúrbio mental. O dinheiro paga a carência de amor próprio, mas não o fabrica.
 
O fantástico escritor Ernerst Hemingway disse em livro que "Paris é uma festa". Lolita Pile diz que Paris é Hell 75016. Na profundidade de interpretação o corte entre os dois olhares é profundo. Hell é superficial e não há grife famosa que dispense a palavra "deprimente". Portanto, eu não lerei esse livro uma segunda vez. Dizem que a primeira impressão é a que fica. Mas para a superclasse esse ponto de vista e nada são a mesma coisa. O que vem de baixo não lhes incomoda. Ainda assim, se alguém proibir você de ler esse livro, desobedeça. Todo protecionismo moral revela medo e volubilidade. Ninguém está privado de atravessar um vale de sombras. Eu ainda prefiro a Paris das revoluções.

 

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