quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Rodolfo Zíper e seus planos para o mundo


Algum dia você já imaginou uma pessoa doida, mas que parece certinha? Pois bem, Rodolfo não é uma coisa nem outra. Trata-se de uma combinação meio estranha dos estados do ser. Seu apelido se deve ao hábito que ele tem de não usar cuca e, num belo dia, o zíper da calça que usava prendeu a ponta do seu prepúcio. Foi uma experiência hilária e, certamente, dolorosa.



O fato de Rodolfo ser alvo da malhação alheia levou-o a arquitetar um delicioso plano de vingança. A grande idéia surgiu enquanto bebericava um chope num boteco. Ele apelou e se cansou da pindaíba pela qual vinha passando. Resolveu, como dizem por aí: “chutar o balde”. Destilaria suas mágoas nas pessoas. O pobrezinho já não agüentava o deboche dos outros por causa do seu bigode estilo escovinha (realmente horrível) e do seu cabelo no melhor penteado “boi lambeu”. Todos gargalhavam. Rodolfo reagiu a tudo com fúria mortal.


Apoderou-se de uma caneta e de um bloco de papel e decidiu aprontar uma reviravolta incomparável. O mundo estaria em suas mãos. O poder seria seu. Que coisa maravilhosa! Nada poderia impedi-lo.



Ele começou escrevendo:



“Eu sou o único poder. Todos elementos se curvam diante de mim. Portanto, todas as coisas são como eu quero. Então, determino: agora o mundo é uma bola de sabão feita pelo meu canudinho e todos estão com o coração na mão temendo que ela se arrebente. Que prazer isso me dá!”
Cansei-me dessa brincadeira. Agora o mundo é uma pizza de presunto tamanho família. Mas eu detesto presunto e vou jogar tudo para meu cão pastor alemão que está faminto há dias. É muito bom ver a aflição das pessoas diante disso.




Agora todos os homens são meus soldadinhos de chumbo e todos eles me saúdam em posição de sentido, dizendo: Dá-lhe, Zíper! Dá-lhe, Zíper! Quando amanhece, religiosamente, eles fazem trezentas flexões de braços em minha reverência. Que beleza! Todas mulheres possuem uma foto minha, com pose de estadista, presa à porta do guarda-roupas, provando que eu sou irresistível e unânime. Realmente, é chato ser tão gostoso.



Declaro que a Terra é o centro do universo e se alguém abrir a boca para discordar eu pego, prendo e arrebento. Alguém se habilita? Considerando que eu sou uma pessoa extremamente sensível, só terão direito à vida aquelas pessoas que copiarem meu look, usarem a mesma marca de xampu, perfume e sabonete que eu. Aqueles que resistirem, serão enviados à câmara de gás ou receberão uma inofensiva injeção de gasolina.



O único filme a receber todos os prêmios da Academia, inclusive o de melhor dos melhores chama-se “Rodolfo Zíper, uma lição de vida”, e serão rodadas cerca de dez continuações. Em cada residência haverá um quadro pintado por mim. Todos Van Gogh, Picasso, Rembrandt e Dali vão se transformar em cinzas, na minha lareira, naquelas longas noites de Inverno.



Eu sou motivo de todas honrarias possíveis. Os selos têm a minha cara, há bustos meus em praças públicas. Fui eleito homem do ano outra vez consecutiva, moedas e notas levam a minha efígie, há um serviço telefônico com mensagens minhas. Devo lembrar que a melhor banda de rock de todos os tempos fui eu quem criou e as modelos mais bem pagas posam para fotógrafos da minha revista masculina. Quando eu vou ao zoológico, as cobras serpeiam de alegria e, unidas, formam no chão o nome RODOLFO. Os papagaios desandam: “Dá-lhe, Zíper! Dá-lhe, Zíper! Cada macaco usa uma camiseta promocional com os dizeres: “Rodolfo é o maior”. É emocionante ver tanta devoção para comigo. Até as nuvens formam caricaturas minhas no céu.



Agora, o maior best seller é nada mais, nada menos do que a minha autobiografia. A comunidade literária está de queixo caído. Todos os anos jovens fazem gincanas culturais com curiosidades sobre minha vida. A editora que, por acaso, é minha, prepara a milésima edição do meu consagrado trabalho. O mundo passou a ser um espote de luz lançado sobre mim e ilumina meu desempenho como ator de uma grande comédia. Eu seguro um globo na mão e ameaço espetar países de todos os continentes, enquanto o público chega a chorar de tanto rir. Minhas ações revelam graciosidade. Sou a excelência.



O globo terrestre passou a ser o meu quintal e, de certa forma, isso é entediante. Quem sabe o universo é uma brincadeira ainda mais divertida? Os planetas podem ser bolinhas de gude e minha vontade é jogar todas elas no buraco negro.



Agora, ninguém me menospreza nem me chama de cara de fuinha quando caminho pelas ruas do bairro onde moro, porque sou, inconcebivelmente, superior a todos”.



Com uma caneta e fértil imaginação, Rodolfo pode tudo, criando situações para satisfazer seu ego ou escarnecer os exageros e as aberrações do mundo. Mas o que ele deseja, realmente, é comer-beber-dormir-ir ao banheiro-amar-pensar sem correntes presas ao cérebro. Ligar uma televisão sem ter que ouvir que algum fariseu armou uma bomba e mandou inocentes pelos ares. Rodolfo é incapaz de fazer mal a um leão faminto, desde que não critiquem seu penteado e seu bigodinho (horrível).



Mal Rodolfo Zíper concluiu seu manifesto que lhe outorgava poderes supremos, um garoto que passou do outro lado da rua, vendo aquela figura sentada na varanda da casa, não resistiu e gritou:



-E aí, boi-lambeu, segura a onda aí!




Lecy Pereira Sousa
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Obs.: A ilustração utilizada neste conto está no site www.michaelgillette.com
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