sexta-feira, 6 de junho de 2008

Os descaminhos da melancolia V


Há algum tempo não me punha a tecer essa espécie de purgação literária. Eu diante de um espelho em forma de página, esperando, ela, a página, pela construção de alguma imagem.
 
 
Nos tempos atuais, o que está mesmo em voga é a desconstrução, vide Jacques Derrida, filósofo que eu nunca li como se deve. Para alguns empedernidos, eu não deveria lê-lo de jeito nenhum. Acho que não há pior coisa do que tentar proibir ou incentivar alguém a ler, em demasia, sobre um determinado assunto. A atitude de proibir ou censurar, chega a ser um contra-senso , uma manifestação infantilizada que parece nos convidar sempre a uma involução.
 
Eu não desejo fazer desse texto um novo tratado nem uma nova tese-síntese-antítese. Sei que algumas pessoas têm dito que estou vivendo a crise dos quarenta anos que deve chegar daqui até uns dez meses ( um filho pós-maturo). Aquela fase de experimentar algumas dores na alma, na marra. Ver partindo , no sentido de morrer , pessoas que você sempre amou. No caso, esse "você", sou eu , mesmo, euzinho da Silva. Depois ouço alguém dizer que isso acontece com todo mundo e que tal constatação me sirva de conforto. Dizem (acho ótima essa impessoalidade) que na pré-história, os "homens" choravam quando morria alguém do bando. Eles não entendiam aquele negócio da pessoa parar de funcionar para todo o sempre. O cérebro não veio com um manualzinho de instrução básica para esses momentos, digamos, delicados, incomuns aos bárbaros de nascença. Que eu fique com minha suposta crise, enquanto outros já passaram por ela de há muito e não fazem a menor questão de entrar em detalhes a respeito. Ninguém gosta de parecer vulnerável. O fingimento é uma das adaptações que mais soubemos introjetar desde a nossa criação ou evolução (somos livres para escolhermos o modo).
                                                                                                
Bem, quer dizer, mal, ouvi e vi na televisão que a inflação voltou a subir e que as pessoas estão sentindo isso na hora do almoço fora de casa. Puta que pariu. Desculpe-me pela falta de elegância e de finesse. Passei a maior parte da minha vida ouvindo que a inflação voltou a subir. Caralho! Ops! Penso que o Brasil é um país que não sabe viver sem inflação. Também está incutida na alma do brasileiro a necessidade de um aumentinho em tudo. Poucas são as pessoas que se mobilizam pela redução das taxas sobre produtos. Vale lembrar que ( e não se trata de nenhum Vestibular) a Revolução Francesa começou por um desentendimento básico na cobrança de impostos. O derramamento de sangue e o rolar de cabeças deixou o povo francês com um melhor senso de justiça social. Quando Tiradentes, entusiasmado com o Igualité, Fraternité e Liberté, tentou abrir a cabeça dos seus iguais, deu no que deu: enforcamento em praça pública e esquartejamento com partes do corpo espalhadas pelas cercanias da cidade. "Ninguém" teve coragem de afrontar a Coroa ao longo de todos esses Séculos. Perceba que citar a história francesa é um romantismo típico de povos latinos colonizados. Duvido se na Finlândia ou na Islândia algum adolescente tenha que dissertar sobre a Queda da Bastilha ou o Fordismo , para ficar nesses exemplos mais clássicos.
 
Ainda ouvi e vi que Barak Obama é o primeiro negro norte-americano com chances de chegar à Casa Branca. A verdade é que até um robô ou um boneco pode presidir os EUA na atualidade. Tanto faz. Quem gere os EUA são as mega corporações. O papel do presidente é vegetal, seja ele branco, negro, cor de rosa, pele vermelha, etc. Tudo bem que essa afirmação parece um reducionismo xiita. O fato é que até hoje há americanos (milhões deles) que não sabem onde fica o Brasil, nem com o apoio da Internet. Enquanto isso, nós somos obrigados a saber, nos livros didáticos, que os EUA ficam na parte de cima da América Latina. É como se a verticalização criada pelos europeus fosse uma ciência fruto (SIC) do surgimento do planeta Terra.
 
O que mais me chamou a atenção nessa corrida presidencial astronômica, onde o ganhador paga a divida do perdedor para ter seus votos, foi o staff de Obama fazer uso da música de um grupo musical irlandês como tema de sua campanha. Toda vez que Obama aparece em cena você pode ouvir a música "Beautiful Day" do U2. Tudo que sei é que Bono Vox já foi esnobado por George Bush devido à sua luta contra a fome na África. Justamente o Bono que pode comprar o editorial de qualquer jornal comercial do mundo a qualquer momento e dizer o que bem entende. Acabar com a fome no mundo é um sonho de um popstar , das igrejas piedosas e da ONU, mas não é o sonho do Grupo dos Oito países mais ricos. Por favor, não me venha falar das Metas do Milênio. Eu não tenho visto o primeiro escalão do poder mundial trabalhando dia e noite para cumprir essas metas. Aquela conversa de: você precisa fazer a sua parte, soa melhor como um teaser publicitário matador.
 
Já sei. Para quem começou falando de uma suposta crise da meia idade e termina falando de sucessão presidencial americana, posso imaginar qual será a minha nota redacional . Tudo bem, quem mandou a gente não ser convencional? A propósito, volta e meia tem uma formiguinha passeando aqui em casa. A paciência costuma matar a fome de muita "gente", penso.


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