terça-feira, 20 de maio de 2008

Isso nunca foi um conto

Isso nunca foi um conto
                                                                                                          Com ilustração do desenhista português Vicente Sardinha
 
É só um cigarro na mão de uma mulher de trinta anos com sua cara de quem perdeu um Boeing para o estrelato. Bem poderia ser um cavalo, uma égua, uma mula. Nessas alturas, tanto faz.Ainda que ela esteja politicamente incorreta. Não faltou a fumaça ordinária soprada no ar cheio de gás carbônico liberado pelos carros psicologicamente mais equilibrados.
Morreu Sebastião, morreu Inês, não aquela Inês clássica do chavão Agora Inês é morta. Era uma outra Inês que você não conheceu e, pelo menos nesta vida, não conhecerá. Morreu a Violeta e seu tio, o senhor Pitoresco e também o jovem skatista Abel, mais conhecido nas rampas como Kill Dead. Nunca se viu uma geração tão influenciada pela frase marqueteira American Way of Life. Ninguém mais queria viver como dantes lá em Santa Cruz das Almas. Morreu o coveiro Joaquim Soturno, no quarto seiscentos e sessenta e seis, no tradicional hotel Paraíso. Uma parada cardíaca fulminante, enquanto Clarineide Mortalha, trinta anos mais jovem, ouviu, melhor dizendo, sentiu seu último suspiro bem sobre ela. Clarineide que exibia todos seus sonhos ingênuos e sua generosa nudez branca, agora amarela feita flor de algodão. Santo Deus! Havia um homem morto dentro dela! Que fazer? Gritar, fingir-se de louca, sair correndo pelada pelos corredores do "Paraíso"?
Aquele era um problema da Clarineide. Isso aqui é só a descrição de um céu nevoento expressado em tela a óleo por um pintor aborrecido com a ausência de sol no seu apartamento suburbano, daqueles com elevadores exibindo brasões do tempo do império em suas portas de madeira encerada. Por eles subia dona Maria, uma nonagenária que viu o cometa Halley atravessar o céu estrelado no seu tempo de menina e teve a honradez de enterrar quatro maridos - um do norte, um do sul, um do nordeste e um do sudeste - sem nunca traí-los. Subia também Jude de seios poderosos, saia mínima, botas brancas e uma pistola na bolsa. Enquanto ela olhava para um ponto perdido no tempo, rodeada por mais dez pessoas naquela viagem para cima, seu objetivo era o décimo sétimo andar, João mirou seus seios, Claudinho focou suas cochas e Jardel lhe disse quebrando o gelo: - Eu tenho uma bomba pra te contar. Você vai cair pra trás! Ele é que não imaginava a surpresa que ela lhe reservara no apartamento 1707. A manchete no jornal popular estaria garantida no dia seguinte. Subia Adélia, a enfermeira. Ela tinha saído de um plantão, usava óculos escuros e chorava em silêncio. Ninguém prestou atenção. Os seios de Jude eram mais atraentes. A verdade era que Adélia queria sumir. Por que todos que estavam naquele elevador não morriam logo e lhe deixavam em paz, só,só, só, para chorar até sumir. Estava com nojo de si, dos médicos, da medicina. Sua mãe, cancerígena, cansada de tanta dor, implorou pela injeção letal. A equipe médica foi conivente. Nada de prontuários. Nada de legislações. Uma injeção levemente alterada. Adélia matou sua mãe para aliviar seu sofrimento. Agora restava ligar para sua irmã, Clarineide, lá em Santa Cruz das Almas. Avisar a familiar. Velório. Túmulo. Por que o elevador não sumia enquanto subia?
É só uma mulher ansiosa contando as poucas estrelas visíveis. Ela espera alguém que subia no personagem elevador e que só chegará vivo ao encontro combinado se Deus quiser. Espera. Ânsia. Carros que passam anônimos. Isso nunca foi um fim! 

                                                                                                                                                    Autor: Lecy Pereira Sousa
                                                                                                                                                    Escritor e Poeta Performer


Postar um comentário